Viagem a Minas Gerais

mapa Minas GeraisMinas Gerais tem sabor de História. A História do Brasil escrita por seus poetas e heróis, artistas e revolucionários. Guarda em suas ladeiras os passos de Aleijadinho, de Tiradentes, de Cláudio Manoel da Costa... Prende, ainda, em sua atmosfera, o perfume de Bárbara Heliodora... Ainda, sob a terra, as marcas digitais dos escravos mineiros e seus segredos do cíclo do ouro,  sussurrados pela águas que escorrem das Minas abandonadas...fugitivos das paredes douradas das suas Igrejas pintadas de ouro...ouro recolhido por eles, em perigo, para ornar sua devoção... E o Barroco magistral, hoje patrimônio da Humanidade, pelas mãos geniais de Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) ou de Manuel da Costa Ataíde...A poeira da Estrada Real nos leva , ainda, às mãos mágicas dos artesãos de Bichinho, Prados... Arte viva a retratar sua  história, sua gente, seus afazeres e, por isso, a tua história e também a minha. Embarque comigo neste trem e venha conhecer a Estrada Real: Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes, São João Del Rei, Mariana, Amarantina...
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São João Del Rei

Hoje, acordei em São João Del Rei. Tenho o péssimo hábito de sair sem rumo - e sem reserva - mas tenho uma sorte incrível para encontrar bons lugares na última hora! O Hotel Ponte Real, bem localizado, de frente para a Ponte da Cadeia. A Ponte em arcos romanos sobre o córrego do Lenheiro, como podes ver na foto tirada da minha janela. No café da manhã, uma doce surpresa: o atendimento vip do Luciano cerca o hóspede de mimos...não dispense a canjiquinha..nem os biscoitos caseiros...nem as dicas do Luciano, anotadas com esmero para que não se perca nada do lugar!

Centro Histórico

Conferindo as dicas do Luciano, saí em peregrinação pelo Centro Histórico da "Capital dos Inconfidentes" ou também chamada "Comarca do Rio das Mortes". Visitei o museu da Arte Sacra e o museu Ferroviário. O solar da Baronesa, próximo ao Chafariz, e o solar dos Neves, onde nasceu Tancredo, presidente...a casa de Bárbara Heliodora, poetisa e musa de Alvarenga Peixoto, onde funciona o Museu Municipal... O casario da rua Santo Antônio  e o Beco do Cotovelo...

Igrejas e a Arte Barroca

A Igreja N S do Rosário tem o trabalho artístico de Luís Pinheiro de Sousa e a Igreja de N S do Carmo tem as suas fachadas assinadas por Francisco de Lima Cerqueira, esculturas de Joaquim de Assis Pereira e Manuel Rodrigues Coelho. Há também  um Cristo em madeira, de autor desconhecido, descoberto no forro da igreja por Heitor Costa, arquiteto autor do projeto do Cristo Redentor.

A Igreja de São Francisco de Assis teria sido projetada, inicialmente, por Aleijadinho e, após, por Francisco Lima Cerqueira. É uma obra-prima da arquitetura mineira. A escultura de São João Evangelista é atribuida a Aleijadinho. Na capela-mor o "Senhor de Monte Alverne": conta uma lenda que foi esculpido, aparentemente sem instrumentos e sem  barulho algum, por um peregrino. Senhor de barbas brancas e cheio de mistérios que desapareceu, como veio, após tê-lo concluído.

Fato também curioso é a tradição de alguns rituais , como  a "encomendação das almas", praticado em altas horas da noite, junto aos cemitérios.

Levarei de São João Del Rei, a visão de suas fachadas, de suas sacadas de ferro rendilhado e o artesanato de Miguel Santeiro...

Tiradentes

A rivalidade entre as duas cidades é por conta da reivindicação do berço do inconfidente José Joaquiim da Silva Xavier. Nascido na fazenda do Pombal, área que pertencia a São João Del Rei, mas que foi transferida para Tiradentes. Dizem, ali, que o mártir era filho de fazendeiros, irmão de padre e capitão.Junto com São João Del Rei, Tiradentes faz parte do Arraial do Rio das Mortes, e foi palco também da guerra dos Emboabas. Emboabas: outros - que não os pioneiros, paulistas da capital - que viessem se aventurar na busca do ouro, eram chamados de emboabas...

Berço do Inconfidente Padre Toledo, que cedia sua própia casa para as reuniões secretas do movimento, hoje Museu da Fundação Rodrigo de Melo Franco Andrade. Também nasceram aqui o Marquês de Maricá e o poeta Basílio da Gama, autor de Uraguai. E o músico João Feliciano da Mata que, segundo Olinto Rodrigues, recusou uma bolsa de estudos na Itália,que lhe foi obtida pelo compositor Carlos Gomes.

Tiradentes, ao pé da serra de São José, pode ser explorada de charrete. O passeio de charrete me deixou "um caco", devido às pedras irregulares, conhecidas aqui em Minas por "pé-de-moleque", mas valeu o passeio! O Fábio vai conduzindo e indicando os pontos turísticos... e até tirando  fotos...

A Igreja de Ouro e o Relógio de Sol

A Igreja Matriz de Santo Antônio, no alto da colina, é um dos símbolos de Tiradentes, ao lado do relógio de sol. Há, no seu interior, um órgão vindo de Portugal. É muito rica em ouro. A Igreja de N S do Rosário tem o teto da capela-mor pintado em perspectiva.

Almocei no "Estalagem do Sabor" um "Mané sem Jaleco": misto de arroz, feijão, couve e toucinho. O prato "Abóbora Real", recheada com carne seca e acompanhada de Taioba, tem que pedir de um dia para outro. Em Tiradentes, a via gastronômica começa a partir de quinta! Fome!

Artesanato Mineiro e casas de Adobe

O artesanato de Bichinho, assim como de todo Prados, é constituido de imagens sacras esculpidas em cedro e outras criações em madeira, ferro de construção,  estanho, resina, gesso, argila ...ou lata, plástico, palha de milho e  esponja vegetal.  A criatiidade no aproveitamento de materias é impressionante. Destacam-se a Oficina de Agosto, a Divina Arte, a de Naninho ...  mas há mais, muito mais...

Em Prados, conheci o artesanato dos irmãos Andrade: Fernando e Irineu, com suas esculturas em madeira e imagens sacras...também a loja do Eurico, do Julião...

Distrito de Prados, Bichinho, cujo nome oficial é Vitoriano Veloso, fica a sete quilômetros de Tiradentes e vive exclusivamente do artesanato. Suas casas são também artesanais, com  paredes eregidas em adobe - barro não cozido, misturado a fibras de capim, cortado em blocos e secado ao sol. As casas, dizem, eram construídas sem janelas, para proteger as filhas solteiras. O Adobe é isolante térmico e acústico...

Na Estrada Real, um Museu do Automóvel

Almocei no "Pau de Angu", em Bichinho, uma "lingüiça" que foi mencionada até no "Quatro Rodas" mas, bom mesmo, é o doce de laranja da Dona Leo.

Do "Pau de Angu", trouxe esse causo mineiro:

Causo mineiro:
"Sapassado, era séssetembro, taveu na cuzinha tomano uma pincumel e cuzinhano um kidicarne com mastumate pra fazê uma macarronada com galinhassada. Quascai disus, quando uvi um barui vino de denduforno, pareceno um tidiguerra. A receita mandopô midipipoca denda galinha prassá.
O forno isquentô, o mistorô e a galinha ispludiu!Nossinhora! Fiquei branco quineim um lidileite. Foi um trem doidim, uai! Quascai dendapia! Fiquei sensabê doncovim, proncovô, oncotô. Oi procevê quelucura! Graza Deus ninguém simaxucô!"

Congonhas e a Arte de Aleijadinho

Do alto da colina, os Profetas de Aleijadinho derramam bençãos à cidade, mas há quem diga que eles conspiram. Na Basílica, uma obra genial, criada pelas mãos de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Aqui, o gênio do barroco brasileiro despediu-se da arte e da própia vida, pois conclui a obra apenas 9 anos antes de sua morte. O conjunto integra os doze profetas; as Capelas dos Pssos, com as imagens da Via-sacra; e a Basílica do Bom Jesus de Matosinhos. Sobre os Profetas, pesquisadores de História da Arte da PUC de Campinas suscitam a tese de que Aleijadinho quis figurar em cada Profeta um participante da Inconfidência Mineira, fundada nas diferenças nas indumentárias, nos gestos e sinais das esculturas. Há, também, outra curiosidade com referência à escolha dos profetas: Aleijadinho não teria representado um dos doze profetas menores, um dos mais importantes,  Zacarias, mas teria representado junto a outros profetas menores, cinco profetas maiores, mesclando Novo e Velho Testamento..  Eis os Profetas de Aleijadinho: Daniel, Oséias, Isaias, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Jonas, Joel, Amós, Nahum, Abdias e Habacuc.

Os Profetas de Antônio Francisco Lisboa

No Passo da Crucificaão, além das impressionantes emoções perpassadas pelas figuras como a expressão de  fingimento  no Judas; há um genial efeito de perspectiva.

No Passo da Ceia, foi usado um artifício revolucionário para a época: quase todas as imagens têm as costas ocas, mas sugerem a ilusão de star inteiras, assim como a toalha da mesa disfarça a falta das pernas.

Comida Típica da Cozinha Mineira

Na capital do rocambole, Lagoa Vermelha, a melhor comida mineira, na minha opinião. O "Figueira do Imperador", além do ótimo rocambole, típico da região, oferece essa comidinha aí, em panela de pedra, cozida no fogão à lenha, no qual a gente se serve à vontade. O preço, menos de dez reais e o rocambole inteiro, para levar para casa, é dez. E a simpatia do Marcão, não tem preço! A figueira, onde o Imperador descansava com sua tropa, está lá...

Parada do Pastel de Angu do Jeca Tatu

Não saia de Minas sem provar o pastel de angú do "Jeca Tatu". Mistura de poesia e discos de vinil, o lugar é surreal. Pombas arrulham, de cima de  quadros coloridos; perus e galináceos te dão as boas-vindas e o pastel do Jeca, de angú e carne-seca, além de inusitado, é divino! E custa menos de dois reais... na parada do Pastel de Angu...onde fica isso? pertim...pertim de Ouro Preto...em Itabirito.

Receita de Pastel de Angu

Pastel de Angu -
igredientes:
1 kg de fubá; 1,5 litro de água; 1 xícara de farinha de trigo; sal a gosto.
Misturar o fubá e a farinha de trigo; colocar a água aos poucos e levar a mistura para cozinhar em fogo alto; temperar com o sal; retirar do fogo e aguardar esfriar;
Untar as mãos com margarina e trabalhar a massa, bem fina, para os pastéis;
Rechear com refogado de carne-seca, palmito  ou outro de seu agrado.
Esta receita é típica da cidade de Itabirito, MG.

Ouro Preto

Ouro Preto é Patrimônio da Humanidade e, para prestigiar essa honraria, nada melhor que começar por seu circuito de Museus...

Museus de Ouro Preto

O Museu da Inconfidência (foto) é o paraíso dos pesquisadores, com o grande acervo do Arquivo Colonial, mais de 40 mil documentos e a uma Biblioteca com mais de 19 mil volumes. Tem também o Laboratório de Conservação e Restauração, com ateliês de pintura, escultura, madeira e papel. Além de Exposições e, claro, as divinas esculturas de Aleijadinho. Para construí-lo, o governador Cunha Meneses, "o fanfarrão Minésio", teria mandado prender pessoas pobres "por vadiagem" e escravos fugidos, obrigando esses ao trabalho escravo. O prédio é uma obra-prima da arquitetura colonial. De terça a domingo, das 12h às 18h. No Centro Histórico.

O Museu Aleijadinho, homenagem ao "Patrono da Arte no Brasil", Antônio Francisco Lisboa, nascido em Ouro Preto. Exposição permanente do acervo. De terça a domingo, das 8h30 às 12h e das 13h30 às 17h. No Bairro Antônio Dias.

O Museu Casa Guignard abriga as obras de um dos maiores pintores e desenhistas brasileiros. De terça a domingo, das 12h às 18h. No Centro Histórico.

O Museu da Casa dos Contos foi sede da "Administração e Contabilidade Pública da Capitania de Minas Gerais", daí o nome "Casa dos Contos". Serviu de prisão de Inconfidentes, em 1789. Em seu acervo, numismática da Casa da Moeda do Brasil e documentação do Centro de Estudo do Ciclo do Ouro. N segunda, das 14h às 18h; de terça a sábado, das 10h às 18h; domingo e feriado, das 10h às 16h. No Centro Histórico.

Ainda no Centro Histórico, na Praça Tiradentes, o Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas. E o Museu do Oratório, junto à Igreja Nossa Senhora Do Carmo, com um acervo significativo dessa arte.

Em Amarantina (25 km), o Museu das Reduções. Obras dos Irmãos Ênnio, Décio, Evangelina e Sylvia. Os irmãos Vilhena reproduziram em escala reduzida e usando os mesmos tipos de materiais das edificações originais, 25 réplicas de monumentos de  vários Estados do Brasil. Entre eles, a réplica da Igreja São Francisco de Assis da Pampulha (MG); a Matriz de N S da Conceição de Viamão (RS); a Estação Ferroviária de Joinville (SC); a Casa dos Contos e outras...

Mina do Ciclo do Ouro

As Minas que fazem parte do Ciclo do Ouro, guardam ainda em seus interiores, o brilho de uma época de fastígio e opulência. Hoje, a água que escorre de seu veios é tida como uma poção de beleza e é canalizada para grandes piscinões públicos...enfim, o ouro é do povo...

A Noite de Ouro Preto oferece muitas opções. Muitos lugares interessantes, freqüentados por turistas de várias partes do mundo e um público formado principalmente por artistas... Estou no  "Calabouço"... Prendam-me aqui para sempre...não quero outra vida...

A Noite de Ouro Preto - Calabouço

Poesia de Manuel Bandeira sobre Ouro Preto...

Bem sei que os monumentos veneráveis
Não correm perigo
Mas Ouro Preto não é só o
Palácio dos Governadores,
A Casa dos Contos,
A Casa da Câmara,
Os Templos,
Os Chafarizes,
Os nobres sobrados da Rua Direita.
Ouro Preto são também os casebres de taipa de sopapo
Aguentando-se uns aos outros ladeira abaixo,
O casario do Vira-Saia,
Que está vira-não-vira enxurro,
E é a isso que precisamos acudir urgentemente!
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto

bookmark | by A Gata por um fio 21/10/2007