Luiz Coronel

Luiz CoronelPequena Biografia: O poeta nasceu em Bagé, no Rio Grande do Sul, passando a residir, mais tarde, em Porto Alegre, capital. A Poesia "Noturno de Porto Alegre" foi apresentada na Semana de Porto Alegre e o causo "Amores Risiveis" e do livro "O Cachorro Azul". Outras Obras: "Buçal de Prata", "Poemas Azuis", "Os Retirantes do Sul", "Saturnino desce ao Pampa", "O Dia da Inauguração do Mundo" , "Os Cavalos do Tempo", "Lunarejo" "O Cavalo Verde", "O Gato Escarlate", "Mundaréu".

Noturno de Porto Alegre

Posto que a um reino estenderás teus vínculos,
assim bem menor há de se tornar tua orfandade.
De minha parte eu me declaro súdito e consagrado
ao claro esplendor de minha cidade.

Mas também à tua noite eu me tenho afeito,
mesmo aquelas em que a mais densa neblina
esparge melancolias sobre os telhados
e o frio deita nas taças o sabor dos vinhos.

Às vezes, altas horas, do topo de teus edifícios,
eu te contemplo, cidade. És uma constelação.
E cada vida é uma estrela que tu mesma acendes.
E por ti arde qual uma galáxia de luminosa paixão.

Ao regressar ao “Porto dos Dornelles” eu estendo
as mais sinceras escusas por involuntária ausência.
Mas, de mim, esta cidade não se faz distante –
de tal forma, sua imagem, em meu coração, se faz presença.

Ó cidade, bem não te conhece quem um dia não tenha
se entregue aos teus braços de rio de margens perfumadas.
Breve, eu sei, tenho certeza, muros e anteparos tombarão
e “Porto dos Casais” e o rio serão uma verdade única e entrelaçada.

Mas quais virtudes, além de tua beleza, te fazem assim
amada e envolvente? Teu pôr-do-sol, quase miragem?
Ó cidade, teu destino é ser berço de solidários sonhos,
a contemplar o tempo com um grave compromisso de coragem.

Bem sei, minha cidade, o quanto a vida é breve.
Mas também aprendi quanto de amor ela nos concede.
À cada dia que compor meu tempo, eu agradeço
a indizível graça de viver sob os céus de Porto Alegre.

Causo: Amores Risíveis

"Galhos secos deram frutos no dia em que o amor nasceu",cantarolava Tia Mimosa, solteirona convicta do tempo do pincenê.Na verdade, a história nada tem a ver com Tia Mimosa, posto que se refere especificamente a Pascoal Garcia, o Don Pacholo, nome pelo qual se fez conhecido pelas bandas do Povo Novo, longevos reinos do Nenê Luz. Com cautela, se achegando aos fatos, podemos dizer que, em geral, os argentinos são árvores de palavras. Falam que nem caturrita de hospício. Contrariando a regra, este ao qual o causo se refere era homem de um silêncio abissal. "Boca de falar pouquices e orelhas de ouvir urgentes necessidades". Arrancar uma palavra dele era sacar rolha de garrafa de vinho por longo tempo guardada em pé. Tinha os lábios tensos, apertados para não deixar fugir um sorriso, voar uma palavra tonta ou livre. Mas, como dizem os livros sagrados, "não é bom o homem só". Mário Cafifa, emérito namorador, armou um encontro entre Don Pacholo e a Lola Campos no bar do Velho Capitão.É bom frisar que o "Campos" Lola perdera no giro das roletas de Punta del Este e em desenlaces matrimoniais. Agora, por força das circunstâncias, se assumia por Lolita, no más.Sentaram-se à mesa, ele comedido num vinho tinto, ela encarando,sôfrega, sua cuba-libre. Lolita acende um cigarro no outro, nervosa, tentando iluminar a treva daquele silêncio tumular. Lá pelas tantas, ela não se agüenta:

-Fala, língua de defunto, diz alguma coisa!

-Como fumam las mujeres separadas - foi tudo que disse Pacholo.

Em silêncio quedaram até altas horas, embora a noite fosse domais frio e tenebroso inverno.O segundo diálogo foi um grand finale.

-Vamos a um motel? - sugeriu Lola.

-No me gustan los moteles com sus camas redondas en donde no se puede apoyar los talones.

-Então, vamos à minha casa - foi a proposta de Lola.

-Cuando amanezca tendré que irme - disse Pacholo, o silencioso Don Juan.

Chamar de casa aquele morredouro perfazia um eufemismo.Pelas frinchas da janela, o vento entrava sem pedir licença e o gélido frio tomava conta do recinto.Don Pacholo estava no reino das mil e uma frestas.

-La pucha digo, no hay un coñac en esta casa para calentar el cuerpo?

O cobertorzinho para um quebrava o galho. Para dois, um problemadramático. O inverno fazia serenatas com os violinos da chuva chorando pelas calhas.Uma luzinha vermelha num abajur sem vestimenta criava o clima romântico, no entendimento da frívola aventureira. Que clima me falas, se fizeram um amor batendo queixos, tiritando de frio. E não é preciso ter servido na infantaria para saber que é melhor um inimigo pela frente que um vento pelas costas.Tão logo conseguiu se escapar daquela mulher de bunda de pingüim, o gélido boêmio adentrou-se no poncho e tomou o rumo da portinhola. Semidormida, saindo dos labirintos do sono, Lolita murmurou:

-Quando é que tu voltas? Diz pra mim, quando, Pacholo?

Don Pascoal Garcia, levantando a gola e com a mão na aba do sombreiro, pronto para enfrentar a brumosa madrugada, respondeu ríspido e rasteiro: - En el verano, señora! En el verano!

bookmark | by A Gata por um fio 03/09/2007

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