Um Cão de Lata ao Rabo - Machado de Assis
pintura de Casimiro SaizMiniconto de Machado de Assis:
(estilo antitético e asmático...)Um menino atara a lata ao rabo do cão.
Que é rabo? Um prolongamento e um deslumbramento. Esse apêndice, que é carne, é também um clarão.Di-lo a filosofia? Não; di-lo a etimologia.
Rabo, rabino: duas idéias e uma só raiz.
A etimologia é a chave do passado, como a filosofia é a chave do futuro.
O cão ia pela rua fora, a dar com a lata nas
pedras. A pedra
faiscava, a lata retinia, o cão
voava. Ia como o raio, como o vento, como a idéia. Era a
revolução, que transtorna, o
temporal que derruba, o incêndio que devora. O cão
devorava. Que devorava o cão? O
espaço. O espaço é comida. O
céu pôs esse transparente manjar ao alcance dos
impetuosos. Quando uns jantam e outros jejuam; quando, em
oposição às toalhas da
casa nobre, há os andrajos da casa do pobre; quando em cima
as garrafas choram
lacrimachristi, e embaixo os olhos choram lágrimas de
sangue, Deus inventou um
banquete para a alma. Chamou-lhe espaço. Esse imenso azul,
que está entre a criatura e
o criador, é o caldeirão dos grandes famintos.
Caldeirão azul: antinomia, unidade.
O cão ia. A lata saltava como os guizos do arlequim. De
caminho envolveu-se nas pernas
de um homem. O homem parou; o cão parou: pararam diante um
do outro. Contemplação
única! Homo, canis. Um parecia dizer: —
Liberta-me! O outro parecia dizer: — Afasta-te!
Após alguns instantes, recuaram ambos; o
quadrúpede deslaçou-se do bípede.
Canis
levou a sua lata; homo levou a sua vergonha. Divisão
eqüitativa. A vergonha é a lata ao
rabo do caráter.
Então, ao longe, muito longe, troou alguma coisa funesta e
misteriosa. Era o vento, era o
furacão que sacudia as algemas do infinito e rugia como uma
imensa pantera. Após o
rugido, o movimento, o ímpeto, a vertigem. O
furacão vibrou, uivou, grunhiu. O mar calou
o seu tumulto, a terra calou a sua orquestra. O furacão
vinha retorcendo as árvores, essas
torres da natureza, vinha abatendo as torres, essas árvores
da arte; e rolava tudo, e
aturdia tudo, e ensurdecia tudo. A natureza parecia atônita
de si mesma. O condor, que é
o colibri dos Andes, tremia de terror, como o colibri, que é
o condor das rosas. O furacão
igualava o píncaro e a base. Diante dele o máximo
e o mínimo eram uma só coisa: nada.
Alçou o dedo e apagou o sol. A poeira cercava-o todo; trazia
poeira adiante, atrás, à
esquerda, à direita; poeira em cima, poeira embaixo. Era o
redomoinho, a convulsão, o
arrasamento.
O cão, ao sentir o furacão, estacou. O pequeno
parecia desafiar o grande. O finito
encarava o infinito, não com pasmo, não com medo;
— com desdém. Essa espera do cão
tinha alguma coisa de sublime. Há no cão que
espera uma expressão semelhante à
tranqüilidade do leão ou à fixidez do
deserto. Parando o cão, parou a lata. O furacão
viu
de longe esse inimigo quieto; achou-o sublime e desprezível.
Quem era ele para o
afrontar? A um quilômetro de distância, o
cão investiu para o adversário. Um e outro
entraram a devorar o espaço, o tempo, a luz. O
cão levava a lata, o furacão trazia a
poeira. Entre eles, e em redor deles, a natureza ficaria
extática, absorta, atônita.
Súbito grudaram-se. A poeira redomoinhou, a lata retiniu com
o fragor das armas de
Aquiles. Cão e furacão envolveram-se um no outro;
era a raiva, a ambição, a loucura, o
desvario; eram todas as forças, todas as doenças;
era o azul, que dizia ao pó: és baixo;
era o pó, que dizia ao azul: és orgulhoso.
Ouvia-se o rugir, o latir, o retinir; e por cima de
tudo isso, uma testemunha impassível, o Destino; e por baixo
de tudo, uma testemunha
risível, o Homem.
As horas voavam como folhas num temporal. O duelo prosseguia sem
misericórdia nem
interrupção. Tinha a continuidade das grandes
cóleras. Tinha a persistência das
pequenas vaidades. Quando o furacão abria as largas asas, o
cão arreganhava os dentes
agudos. Arma por arma; afronta por afronta; morte por morte. Um dente
vale uma asa. A
asa buscava o pulmão para sufocá-lo; o dente
buscava a asa para destruí-la. Cada uma
dessas duas espadas implacáveis trazia a morte na ponta.
De repente, ouviu-se um estouro, um gemido, um grito de triunfo. A
poeira subiu, o ar
clareou, e o terreno do duelo apareceu aos olhos do homem estupefato. O
cão devorara o
furacão. O pó vencera o azul. O mínimo
derrubara o máximo. Na fronte do vencedor havia
uma aurora; na do vencido negrejava uma sombra. Entre ambas jazia,
inútil, uma coisa: a
lata.
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A Gata por um fio 30/03/2008

