Conto de Luise Rinser:O Gato Ruivo
Pequena Biografia:
A escritora Luise Rinser (1911-2002) nasceu em Oberbayern (sul da Bavária). Ativista política, foi presa por alta traição e chegou a ser sentenciada de morte pelo partido nazista em 1944. Casou-se com o compositor Carl Orff. A escritora é um dos pricipais expoentes da literatura alemã contemporânea, escreveu "Die gläsernen Ringe" (romance auto-biográfico), "Mitte des Lebens", "Bruder Feuer" e o famoso "Abelardo's Love".
Eu sempre tenho de pensar naquele
diabo de gato ruivo, e
não sei se foi
certo o que fiz. Tudo começou quando estava sentado em nosso
jardim, no
monte de pedras ao lado da cratera aberta por uma bomba. Este monte de
pedras é a parte maior de nossa casa. A menor ainda
está de pé, e é aí
que nós moramos, eu e mamãe e Peter e Leni, que
são meus irmãos
menores. Lá estou, então, sentado sobre as
pedras, a grama já cresce
por toda parte, e as urtigas e outras plantas. Estou segurando na
mão
um pedaço de pão que já
está duro, mas minha mãe diz que pão
velho faz
mais bem do que o fresco. Na verdade ela diz isso porque acredita que o
pão velho precisa ser mastigado por mais tempo e, com isso,
fica-se
satisfeito com menos. Não é o que acontece
comigo. De repente, um naco
cai no chão. Eu me abaixo, mas no mesmo instante uma pata
vermelha sai
de dentro da urtiga e fisga o pão. Foi tão
rápido, que nada pude fazer
além de ficar olhando feito bobo. E nesse momento vejo que
há um gato
agachado entre as urtigas, ruivo como uma raposa e muito magro.
"Maldito bicho", digo, e arremesso uma pedra em sua
direção. Eu não
queria acertar o gato, apenas afugentá-lo. Ainda assim devo
tê-lo
acertado, pois ele gritou, só uma única vez, como
uma criança. Mas não
se mexeu de seu lugar. Aí lamentei ter atirado e comecei a
chamá-lo.
Mas não saiu do meio das urtigas. Ele respirava ofegante. Eu
podia ver
como o pêlo ruivo sobre a barriga se erguia e abaixava. Ele
ficava me
olhando com seus olhos verdes. Perguntei-lhe então: "O que
você quer,
afinal?" Isso era maluco, pois ele não é uma
pessoa com quem se pode
conversar. Aí fiquei zangado com ele e também
comigo, e eu simplesmente
não olhei mais para lá e engoli meu
pão bem rápido, com dificuldade. O
último bocado, ainda era um pedaço grande, eu
joguei para ele e fui
embora com muita raiva.
No jardim da frente, lá estavam
Peter e Leni e estavam cortando vagens. Tinham enchido a boca com
feijões verdes que faziam um rangido forte, e Leni perguntou
em voz bem
baixa se eu ainda tinha um pedacinho de pão. "Ora",
respondi, "você
ganhou um pedaço tão grande quanto o meu, e
você tem apenas nove e eu
treze. Os maiores precisam de mais." - "Claro", ela falou, mais nada.
Peter então disse: "É porque ela deu o
pão dela para o gato." - "Que
gato?", perguntei. "Ah", diz Leni, "veio aí um gato, um gato
ruivo,
parecia uma raposinha e estava tão magro. Ficava sempre
olhando para
mim quando eu queria comer meu pão." - "Idiota", eu disse
zangado, "se
nem nós mesmos temos nada para comer." Mas ela apenas deu de
ombros e
rapidamente voltou os olhos para Peter, ele estava com o rosto
vermelho, e estou certo de que ele também deu seu
pão para o gato. Aí
fiquei realmente aborrecido e precisei afastar-me.
Quando
chego na avenida, lá está parado um
automóvel americano, um carro bem
grande e comprido, um Buick, acho, e o motorista me pergunta como
chegar à câmara municipal. Perguntou em
inglês, e afinal de contas eu
sei um pouco de inglês. "The next street", respondi, "and
then left and
then" - diretamente em frente não sabia como dizer, por isso
eu
indiquei com a mão, e ele me compreendeu. - "And behind the
church is
the marketplace with the Rathaus." Acho que isso foi muito bem dito em
americano, e a mulher dentro do carro deu-me algumas fatias de
pão
branco, bem branquinho, e, quando o abro, no meio tem frios, e em
grossas camadas. Imediatamente corri para casa com o pão.
Quando entrei
na cozinha os dois menores rapidamente esconderam algo embaixo do
sofá,
mas mesmo assim eu vi. Era o gato ruivo. E sobre o chão
havia um pouco
de leite derramado, e nesse momento eu percebi tudo. "Vocês
devem estar
malucos", gritei, "esqueceram que temos apenas meio litro de leite
desnatado por dia, e isso para quatro pessoas." E puxei o gato debaixo
do sofá e o joguei pela janela. Os dois pequenos
não disseram uma
palavra. Então cortei o pão branco americano em
quatro pedaços e
escondi o pedaço para mamãe no armário
da cozinha.
"Onde
você conseguiu isso?" eles perguntaram com jeito amedrontado.
"Roubei",
disse, e saí. Eu apenas quis dar uma olhada se
não haveria pedaços de
carvão na rua, pois acabara de passar o carro de
carvão e eles às vezes
perdem alguma coisa. O gato ruivo estava sentado no jardim e ergueu os
olhos para mim. "Vá embora", disse e bati com o
pé em sua direção. Mas
ele não foi embora. Apenas abriu seu pequeno focinho e fez:
"Miau". Não
gritou como outros gatos, somente fez isso assim, não
consigo
explicá-lo. Enquanto isso ele me olhava muito fixamente com
os olhos
verdes. Aí joguei para ele com raiva um naco do
pão americano. Mais
tarde me arrependi.
Quando chego na rua já há dois outros,
maiores do que eu, eles tinham recolhido o carvão.
Então só passei por
eles. Tinham enchido um balde inteiro. Sorrateiramente cuspi dentro
dele. Se não tivesse acontecido aquilo com o gato, eu teria
conseguido
tudo para mim. E teríamos podido cozinhar um jantar inteiro
com o
carvão. Eram pedaços tão bonitos e
brilhantes. Em compensação, mais
tarde encontrei um carro com batatas amadurecidas antes da
época, aí
dei um pequeno empurrão e algumas rolaram para o
chão e depois mais
umas tantas. Coloquei-as nos bolsos e no boné. Quando o
motorista se
virou, eu disse: "O senhor está perdendo suas batatas."
Então fui
depressa para casa. Mamãe estava sozinha lá, e,
em seu colo, o gato
ruivo. "Com mil diabos", eu disse, "a criatura está aqui
outra vez?" -
"Não seja assim tão rude", mamãe
disse, "este gato não tem dono, e quem
sabe há quanto tempo não come. Veja só
como está magro." - "Nós também
estamos magros", respondi. "Dei-lhe um pouquinho do meu
pão", ela disse
e me olhou de soslaio. Eu pensei nos nossos pães e
também no leite e no
pão branco, mas dizer eu não disse nada.
Então cozinhamos as batatas, e
mamãe estava contente. Mas onde eu as havia conseguido ela
não
perguntou. Não me importo, ela bem que poderia ter
perguntado. Mais
tarde mamãe tomou seu café preto mesmo, e todos
ficaram olhando a besta
ruiva bebendo o leite. Depois o gato finalmente pulou pela janela. Mais
do que depressa eu a fechei e respirei verdadeiramente aliviado. Logo
cedo, às seis, fui para a fila para conseguir verduras.
Quando chego em
casa às oito, os pequenos estão à mesa
do café da manhã e, entre eles,
sobre uma cadeira, está o bicho agachado devorando
pão amolecido do
pires de Leni. Após alguns minutos, chega mamãe,
que tinha estado na
fila do açougue desde as cinco e meia. O gato logo pula para
junto
dela, e quando mamãe pensa que não estou olhando
deixa cair um pedaço
de salsicha. Era uma salsicha feia, acinzentada, dessas que podem ser
compradas sem cartela de racionamento, mas nós
também teríamos gostado
de colocá-la no pão, isso mamãe
deveria saber. Engulo minha raiva, pego
o boné e saio. Tirei a velha bicicleta do porão e
saí da cidade. Lá há
um laguinho com peixes. Não tenho anzol, apenas uma vara na
qual estão
fincados dois pregos pontudos, é com ela que tento fisgar os
peixes. Já
tive sorte várias vezes, e hoje também. Ainda
não são dez horas e já
tenho dois bem respeitáveis, suficientes para um
almoço. Vou para casa
o mais rápido que posso, e lá deixo os peixes
sobre a mesa da cozinha.
Desço somente por um momento ao porão e conto
para mamãe, hoje é dia
dela lavar roupa. Ela logo sobe comigo. Só que agora havia
apenas um
peixe, e justamente o menor. E, no parapeito da janela, lá
está o diabo
ruivo e está devorando o último bocado. Fico com
tanta raiva que
arremesso um pedaço de madeira contra ele, e de fato o
acerto. Ele rola
do parapeito, e ouço como cai feito um saco no jardim.
"Aí está", digo,
"isso deve ser o bastante para ele." Mas aí mamãe
me dá uma bofetada
tão forte que faz estalo. Tenho treze anos e com certeza
não apanho
mais desde os cinco. "Você maltrata animais", grita
mamãe, pálida de
tanta raiva comigo. Não pude fazer nada além de
ir embora. O almoço
acabou sendo salada de peixe, com mais batata do que peixe. Em todo
caso, ficamos livres da besta ruiva. Mas ninguém pense que
foi melhor
assim. Os pequenos correram pelos jardins chamando sem parar pelo gato,
e mamãe colocava todas as noites uma tigelinha com leite
diante da
porta e me olhava cheia de repreensão. E aí eu
mesmo comecei a procurar
em todos os cantos pelo bicho, afinal ele poderia estar
caído em algum
lugar, doente ou morto. Três dias depois, porém, o
gato já estava de
volta. Mancava e tinha uma ferida na perna, na perna direita da frente,
isso era da lenha que eu arremessara. Mamãe fez um curativo,
e também
deu algo para ele comer. Desse dia em diante ele veio todos os dias.
Não houve uma refeição sem o bicho
ruivo, e nenhum de nós podia ocultar
qualquer coisa dele. Mal alguém estava comendo algo e
lá já estava ele
sentado olhando fixamente. E todos nós lhe
dávamos o que ele queria, eu
também. Embora estivesse furioso. Ele foi ficando cada vez
mais gordo,
e na verdade era um gato bonito, acho. E então veio o
inverno de
quarenta e seis para quarenta e sete. Aí realmente mal
tínhamos o que
comer. Durante algumas semanas não havia um grama de carne,
apenas
batatas congeladas, e as roupas ficaram totalmente frouxas em
nós. E
certa vez Leni, de fome, roubou um pedaço de pão
na padaria. Mas isso
só eu fiquei sabendo. E no início de fevereiro eu
disse para mamãe:
"Agora comemos o bicho." - "Que bicho?", perguntou e me
lançou um olhar
severo. "Ora, o gato", eu disse, procurando fazer-me de indiferente,
mas eu já sabia o que se seguiria. Todos ficaram contra mim.
"O quê?
Nosso gato? Não tem vergonha?" - "Não", respondi,
"não tenho vergonha.
Nós o empanturramos com nossa comida e ele tem tanta banha
como um
leitão, e ainda por cima é novo, e
então?" Mas Leni começou a chorar, e
Peter me deu um pontapé por debaixo da mesa, e
mamãe disse tristonha:
"Eu não imaginava que você tivesse um
coração tão mau." O gato estava
sobre o fogão e dormia. Ele estava mesmo muito
roliço, e tão preguiçoso
que praticamente já não se conseguia
fazê-lo sair de casa. Então, em
abril, quando não havia mais batatas, nós
não sabíamos mais o que
arranjar para comer. Um dia, eu já estava totalmente
transtornado,
fiquei cara a cara com ele e disse: "Ouça aqui,
nós não temos mais
nada, você não enxerga isso?" E eu lhe mostrei o
caixote de batatas
vazio e o cesto de pão vazio. "Vá embora",
disse-lhe, "você está vendo
como está a nossa situação." Mas ele
apenas pestanejou e se virou sobre
o fogão. Aí eu chorei de raiva e bati sobre a
mesa. Mas ele não se
incomodou com isso. Aí eu o agarrei e enfiei debaixo do
braço. Lá fora
já estava um pouco escuro, e os pequenos tinham
saído com mamãe para
recolher carvão na linha do trem. O bicho ruivo estava
tão preguiçoso
que simplesmente se deixou levar. Fui até o rio. De repente,
um homem
passou por mim, ele perguntou se o gato estava à venda.
"Sim", respondi
e já fui ficando contente. Mas ele apenas riu e continuou
seu caminho.
E de repente eu tinha chegado na beira do rio. Lá havia gelo
movediço e
neblina, e estava frio. Aí o gato aconchegou-se bem junto a
mim, e eu o
acariciei e conversei com ele. "Não posso mais ficar vendo
isso", eu
disse, "não é certo que meus irmãos
passem fome e você esteja tão
gordo, eu simplesmente não posso ficar assistindo isso." E
de repente
eu dei um grito bem alto, e então segurei o
quadrúpede vermelho pelas
patas traseiras e golpeei com ele o tronco de uma árvore.
Mas ele
apenas gritou. Ainda nem de longe estava morto. Então eu o
bati contra
um grande bloco de gelo, mas isto apenas lhe fez um buraco na
cabeça, e
aí o sangue jorrou, e por toda parte havia manchas escuras
na neve. Ele
gritou como uma criança. Eu bem que teria preferido parar,
mas agora
tinha que ir até o fim. Continuei a golpeá-lo
contra o bloco de gelo,
ouvia estalos e não sabia se eram seus ossos ou o gelo, e
ele ainda não
estava morto. Gatos têm sete vidas, dizem, mas este tinha
mais. A cada
pancada ele gritava alto, e de repente eu também gritei, e
eu estava
completamente molhado de suor apesar do frio. Mas uma hora, por fim,
ele estava morto. Aí eu o joguei no rio e lavei minhas
mãos na neve, e
quando olhei mais uma vez para o bicho ele já estava longe,
bem no meio
dos blocos de gelo, depois tinha desaparecido na neblina.
Então senti
frio, mas não quis ir para casa. Ainda perambulei pela
cidade, mas no
final acabei indo para casa. "O que você tem?" perguntou
mamãe, "Está
branco como um fantasma! E que sangue é este no seu casaco?"
- "Meu
nariz sangrou", eu disse. Ela não me olhou e foi para o
fogão preparar
chá de hortelã para mim. De repente, comecei a me
sentir mal e precisei
sair rapidamente, depois fui direto para a cama. Mais tarde
mamãe veio
e disse muito tranqüilamente: "Eu compreendo você.
Não pense mais
nisso." Mas depois, à noite, ouvi Peter e Leni chorando
longamente sob
os travesseiros. E agora não sei se foi certo eu ter matado
o bicho
ruivo. Pensando bem, um animal desses não come tanto
assim.(tradução de Karin Volobuef)
| by
A Gata por um fio 29/01/2008

Pequena
Biografia: