Arthur Clarke: Os Nove Bilhões de Nomes de Deus
Pequena biografia:
O escritor inglês Arthur Charles Clarke (1917-2008), foi membro da Sociedade Interplanetária Britânica e em sua publicação "Reles Extraterrestres" aborda o princípios da comunicação de satélites com órbitas geoestacionárias. Ele estudou profundamente este assunto e foi um dos pioneiros em criações de satélites de comunicação, pelo que obteve várias honras científicas. Hoje a órbita geoestacionária em 42.000 km é nomeada a Órbita de Clarke pela União de Astronômica Internacional. Escreveu também: "2001 Uma Odisséia no Espaço", "2010 Uma Odisséia no Espaço 2," "2061 Uma Odisséia no Espaço 3", "3001 A Odisséia Final", "A Cidade e as Estrelas", "A Luz Das Trevas", "A Sonda do Tempo", "As Canções da Terra Distante", "As Fontes do Paraíso", "Encontro com Rama", "Massa Crítica", "Não Haverá Outro Amanhã, "A Revelação de Rama", "O Fim da Infância", O Martelo de Deus, "A Sentinela", "O Vento Solar", "Os Náufragos do Selene", "Terra Imperial" e outras tantas obras, de Ficção ou Científicas...
O
doutor Wagner conseguiu reprimir-se. Era meritório. Depois
disse:
- O seu pedido é um pouco
desconcertante. Que eu saiba, é a primeira vez que um
mosteiro tibetano faz a encomenda de um calculador
eletrônico. Não quero ser curioso, mas estava
longe de pensar que semelhante instituição
pudesse necessitar desta máquina. Posso perguntar-lhe em que
deseja utilizá-la?
O Lama ajeitou as
dobras de sua túnica de seda e pousou sobre a
secretária a régua de calcular com a qual acabava
de fazer conversões libra-dólar.
-
Naturalmente. O seu calculador eletrônico tipo 5 pode fazer,
segundo diz o catálogo, todas as
operações matemáticas até
10 decimais. No entanto, o que me interessa são letras,
não números. Pedir-lhe-ei portanto que modifique
o circuito de saída de forma que imprima letras em vez de
colunas de números.
- Não
compreendo muito bem...
- Desde que a nossa
instituição foi fundada, há mais de
três séculos, que nos consagramos a um determinado
trabalho. É um trabalho que pode parecer-lhe estranho e
peço-lhe que me escute com a maior largueza de
espírito.
- De acordo.
-
É simples. Tentamos organizar a lista de todos os nomes
possíveis de Deus.
-
Perdão?
O Lama continuou
imperturbável:
- Temos excelentes
motivos para crer que todos esses nomes incluem quando muito nove
letras do nosso alfabeto.
- E ocuparam-se disso
durante três séculos?
-
Sim. Tínhamos calculado que precisaríamos de
quinze mil anos para terminar o trabalho.
O
doutor deu um assobio de vencido, e disse um pouco atordoado:
-
O.K., agora compreendo o porque deseja alugar uma das nossas
máquinas. Mas qual é o objetivo da
operação?
Durante uma
fração de segundo o Lama hesitou e Wagner receou
ter ofendido aquele estranho cliente que acabara de fazer a viagem
Lassa-Nova Iorque com uma régua de calcular e o
catálogo da companhia de contadores eletrônicos no
bolso de sua túnica cor de açafrão.
-
Chame a isto um ritual se quiser - disse o lama - mas é uma
das bases fundamentais da nossa religião. Os nomes de Ser
Supremo, Deus, Júpiter, Jeová, Alá
etc., não passam de etiquetas feitas pelos homens. Certas
considerações filosóficas demasiado
complexas para que as possa expor agora, deram-nos certeza de que,
entre todas as perguntas e possíveis
combinações das letras, se encontram os
verdadeiros nomes de Deus. Ora, o nosso objetivo é
descobri-los e escrevê-los todos.
-
Já compreendo: Começam por A.A.A. e
acabarão por chegar a Z.Z.Z.
-
Simplesmente utilizamos o nosso alfabeto. Evidentemente que lhe
há de ser fácil modificar a máquina de
escrever elétrica, de forma que ela utilize nosso alfabeto.
Mas o problema mais importante será o de preparar os
círculos especiais de forma que eliminem antecipadamente as
combinações inúteis. Por exemplo,
nenhuma das letras deve aparecer mais de três vezes
sucessivamente.
- Três? Quer dizer
duas.
- Não. Três. Mas a
explicação completa exigiria muito tempo, mesmo
que o senhor compreendesse a nossa língua.
Wagner
disse precipitadamente:
- Claro, claro. Continue
por favor.
- Ser-lhe-á
fácil adaptar o calculador automático em
função desse objetivo. Com um plano bem
elaborado, uma máquina desse gênero pode trocar as
letras umas após outras e imprimir um resultado. Desta
forma, concluiu calmamente o lama, aquilo que nos levaria ainda quinze
milênios estará terminado em cem dias.
O
Doutor Wagner sentia que ia perdendo o sentido das realidades.
Através das janelas do edifício, os
ruídos e as luzes de Nova Iorque perdiam a intensidade.
Sentia-se transportado a um mundo diferente. Lá longe, no
seu longínquo asilo montanhoso,
geração após
geração, os monges tibetanos há
trezentos anos elaboravam sua lista de nomes desprovidos de sentido...
Não havia então limite para a loucura dos homens?
Mas
o Doutor Wagner não devia deixar transparecer os seus
pensamentos. O cliente tem sempre razão...
E
respondeu:
- Não duvido que possam
modificar a máquina do tipo 5, de forma a imprimir listas
desse gênero. A instalação e a
conservação é que mais me inquietam.
Aliás, não será fácil
enviá-la para o Tibete.
-
Nós trataremos disso. As peças separadas
têm dimensões suficientemente pequenas para serem
transportadas por avião. De resto, foi esse o motivo porque
escolhemos a máquina. Envie as peças para a
Índia, nós nos encarregamos do resto.
-
Deseja contratar dois dos nossos engenheiros?
-
Sim, para montarem e vigiarem a máquina durante esses cem
dias.
- Vou mandar
instruções à
direção de pessoal - disse Wagner enquanto
escrevia na agenda. - Mas restam duas questões a resolver...
Antes
que tivesse podido terminar a frase, o lama tirou do bolso uma delgada
folha de papel:
- Esta é a
situação de minha conta no Banco
Asiático.
- Muito obrigado.
Está muito bem... Mas, se me permite, a segunda
questão é de tal maneira elementar que hesito em
mencioná-la. Acontece muitas vezes esquecermos qualquer
coisa evidente... Têm uma fonte de energia
elétrica?
- Temos um gerador Diesel
elétrico de 50 KW de potência, 110 volts. Foi
instalado há cinco anos e funciona bem. Facilita-nos a vida
no convento. Compramo-lo sobretudo para acionar os moinhos de
orações.
- Ah! Sim,
evidentemente, eu devia ter pensado nisso...
Do
parapeito a vista era vertiginosa, mas habituamo-nos a tudo. Tinha
decorrido três meses e George Hanley já
não se importava com os seiscentos metros em vertical que
separavam o mosteiro do quadriculado dos campos da planície.
Apoiado sobre as pedras que o vento arredondara, o engenheiro
contemplava com olhar triste as montanhas longínquas de que
ignorava o nome. "A operação nome de Deus", como
batizara um humorista da Companhia, era sem dúvida a pior
tarefa de louco em que jamais participara.
Semana
após semana, a máquina tipo 5, modificada,
cobrira milhares de folhetos de uma incrível algaravia.
Paciente e inexorável, o calculador reunira as letras do
alfabeto tibetano em todas as combinações
possíveis, esgotando série após
série. Os monges recortavam certas palavras à
saída da máquina de escrever elétrica
e colavam-nas com devoção em enormes registros.
Dentro de uma semana acabariam.
Hanley ignorava
quais os cálculos obscuros que os levavam à
conclusão de que não deviam estudar conjuntos de
dez, vinte, cem mil letras, e nem pretendia sabê-lo. nos seus
pesadelos sonhava às vezes que o grande lama decidiria
bruscamente complicar um pouco mais a operação e
que o trabalho continuaria até o ano 2060. Aliás
aquele estranho homenzinho parecia perfeitamente capaz de o fazer.
A
pesada porta de madeira estalou. Chuck vinha ter com ele no
terraço. Chuck fumava, como de costume, um charuto:
tornara-se popular com os lamas distribuindo-lhes havanas. Aqueles
tipos poderiam ser completamente amalucados - pensou Hanley - mas
não eram puritanos. As freqüentes
expedições a aldeia não tinham sido
desprovidas de interesse...
- Ouve, George -
disse Chuck - vamos ter aborrecimentos.
- A
máquina escangalhou-se?
-
Não.
Chuck sentou-se sobre o
parapeito. Era espantoso, pois habitualmente receava ter vertigens:
-
Acabo de descobrir o objetivo da operação.
-
Mas já o sabíamos!
-
Sabíamos o que os monges queriam fazer, mas não
sabíamos por quê.
- Bah!
São uns loucos...
- Escuta, George, o
velho acaba de explicar-me. Eles crêem que assim que tenham
escrito todos aqueles nomes ( e segundo pensam são cerca de
nove bilhões), o objetivo divino será atingido. A
raça humana terá realizado a tarefa para que foi
criada.
- E então? Esperam que nos
suicidemos?
- Inútil. Quando a lista
estiver terminada, Deus intervirá e será o fim.
-
Quando terminarmos, será então o fim do mundo?
Chuck
teve um risinho nervoso:
- Foi o que eu disse ao
velho. Ele olhou-me de forma estranha, como um professor olha para um
aluno particularmente estúpido, e disse-me: "Oh,
não será assim tão insignificante!..."
George
refletiu por um instante.
-É um tipo
que visivelmente tem idéias largas, mas, mesmo assim, que
importância tem isso? Nós já
sabíamos que eram uns loucos.
- Sim.
Mas não vês o que pode acontecer? Se a lista ficar
pronta e se as trombetas do anjo Gabriel, versão tibetana,
não soarem, eles podem decidir que é por nossa
culpa. Afinal de contas, era a nossa máquina que eles
utilizavam. Não gosto disso...
-
Percebo... - disse lentamente Jorge - mas eu já vi tanta
coisa! - Quando era garoto na Luisiana, apareceu um pregador que
anunciou o fim do mundo para o domingo seguinte. Houve centenas de
tipos que acreditaram nele. Alguns mesmo chegaram a vender suas casas.
Mas ninguém se endureceu no domingo seguinte. As pessoas
pensaram que ele apenas errara um pouco os cálculos, e
muitas delas ainda acreditam.
- Caso
não te tenhas apercebido faço-te notar que
não estamos na Luisiana. Estamos ambos sozinhos, no meio de
centenas de monges. Adoro-os, mas preferia estar longe quando o velho
lama aperceber-se que a operação falhou.
-
Há uma solução. Uma pequenina
sabotagem inofensiva. O avião chega dentro de uma semana e a
máquina termina o trabalho dentro de quatro dias
à razão de 24 horas por dia. Basta-nos
começar a reparar qualquer coisa durante dois ou
três dias. Se calcularmos bem, poderemos estar lá
embaixo, no aeroporto, quando o último nome sair da
máquina.
Sete dias mais tarde,
enquanto os pequenos pôneis das montanhas desciam o caminho
em espiral, Hanley disse:
- Sinto um pouco de
remorsos. Não fujo por medo, mas porque tenho pena.
Não gostaria de ver a cara daqueles pobres homens quando a
máquina parar.
- Na minha
opinião - disse Chuck - eles desconfiaram que fugimos, e
não se incomodaram. Agora já sabem até
que ponto a máquina é automática, e
que não precisa de vigilância. E supõem
que não haverá nenhuma depois.
George
voltou-se para trás e olhou.
Os
edifícios do mosteiro apareciam em silhueta escura sobre o
poente. De vez em quando brilhavam pequeninas luzes sob a massa sombria
das muralhas, como as vigias de um navio singrando no mar.
Lâmpadas elétricas colocadas sobre o circuito da
máquina n.º 5.
Que
aconteceria ao calculador elétrico? - pensou George. - Na
fúria e desapontamento iriam os monges
destruí-lo? Ou então recomeçariam tudo?
Como
de ainda lá estivesse, via o que naquele momento se passava
na montanha atrás das muralhas. O grande lama e os seus
assistentes examinavam as folhas, enquanto alguns noviços
recortavam os nomes barrocos e os colavam no enorme caderno. e tudo
aquilo era feito em religioso silêncio. Só se
ouviam as teclas da máquina, batendo no papel como se fossem
chuva miúda. O próprio calculador, que combinava
milhares de letras por segundo, estava completamente silencioso...
A
voz de Chuck interrompeu o seu devaneio:
-
Lá está ele! Que grande alegria que dá!
Semelhante
a uma minúscula cruz prateada, o velho avião de
transportes D.C.3 acabava de pousar lá embaixo no pequeno
aeródromo improvisado. Aquela visão dava vontade
de beber um grande copo de uísque gelado. Chuck
começou a cantar, mas depressa se calou. As montanhas
não o encorajavam.
George consultou o
relógio.
- Estaremos lá
dentro de uma hora - disse. E acrescentou: - Pensas que o
cálculo já terminou?
Chuck
não respondeu e George levantou a cabeça. Viu o
rosto de Chuck muito branco, voltado para o céu.
-
Olha - murmurou Chuck.
George, por sua vez,
levantou os olhos.
Pela última vez,
por cima deles, na paz das alturas, uma a uma as estrelas
começavam a extinguir-se...
| by
A Gata por um fio 05/06/2007

Pequena
biografia: