1.10.19

Poesia de Sandra Santos




A poesia de Sandra Santos



perdi o canto e a cor
descolibri

      *

O Capote

o capote testemunhava
falas não gravadas
atas não lidas

o capote vestia
um cabide que escondia
um prego enferrujado

o capote em luto
setenciava mudo

e o general
– pouco aos poucos
esquecia tudo

o capote e o furo da bala
na lapela da morte

        *

o ponto inicia num sapatinho
e termina num xale de renda

pé sem meia
resta o calor do braseiro

bule craquelado
guarda morangos vermelhos

canta um galo de lata na chaminé
chama o vento


      *


de pão e aramado
teus dedos fartos

argamassa de ovos
trama de cestas

na tela a varejeira
ronda a carne seca


      *


Doravante Dora

Na noite escura A luz é Dora
Dourada Dora
Mulher não és
"Rabit", Dora?

Entre os sinais sinaliza Dora
Entre os espelhos Já é Senhora

Sem mãe, sem pai sem história
Simplesmente Dora

Dourando ao sol
Dura luz
De Dezembro
É Dora

Café pequeno
No Café Concerto
Entre borboletas
Mariposa é Dora

DuraDoura
Contra a luz

No chafariz
Moeda morta
Meretriz

Menina

Do fundo do fosso
Canção blue
Tema livre

Dora em declive
Teto Escarro Chão

Na noite escura
Luz difusa
Mariposa descontinua

Alguém chora?
No beco escorre
Para sempre, Dora

      *


quem maquiou o céu de cinza para uma noite bélica?




Sandra Santos - Lexofágico
Castelinho Edições - Instante Estante







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