28.5.13

Poesia brasileira traduzida por Leo Lobos





Quatro poetas brasileiros apresentados e traduzidos por Leo Lobos:


Claudio Willer, Tanussi Cardoso, Herbert Emanuel e Sandra Santos


A diversidade de linguagens - longe de ser um castigo, como supõe o mito de Babel - se faz presente para que passemos com êxito pelo "teste do estrangeiro". A teoria e a prática se desafiam e se complementam, tal que a reflexão sobre a tradução seja inseparável da experiência de traduzir. Esta seleção de poesia brasileira contemporânea se apresenta como possibilidade de descobrimento, de encontro e reencontro com o Brasil de nossos dias. Tentei buscar sentido por sentido e não letra por letra; ou seja, significação ao ser pronunciado em castelhano, um som português. Estes poetas, Claudio Willer, Tanussi Cardoso, Herbert Emanuel e Sandra Santos, nos mostram parte deste imenso mar orgânico e vivo da escrita brasileira.Compartilho mundos e imaginários, reais e virtuais, dos quais eles também se nutrem. Sim, eles ouvem música erudita, mas também Rap e Rock and roll. Gostam de cinema, sem deixar de navegar na internet e de explorar meios como blog ou twitter, ampliando suas redes de comunicação virtual com outros poetas. Criam revistas de papel e eletrônicas, se aventuram no campo da videoarte. Enfim, são autores atualizados que insistem em viver seu tempo, com direito a explorar todas as possibilidades oferecidas pela tecnologia, verbal e não-verbal, para a criação em nossa época. Navegantes que costumamos frequentar o Brasil, nos descobrimos surpreendidos e maravilhados ante o tamanho do domínio ativo do idioma do Brasil. Significação e som, pois, se em algo diferem as línguas é no recorte fonético que fazem dos sons pronunciados pelo ser humano. O desejo de compreender o diferente e a necessidade de aproximar-se da alteridade sem anulá-la. Compreender é traduzir. Tentar entender o estrangeiro. A poesia desses autores é arte. E é esta visão que deve perdurar. A proveitosa sensação de estar frente a uma legítima expressão de vida e de linguagem. Isso que antigamente se chamava poesia.



Claudio Willer


ANOTACIONES PARA UN APOCALIPSIS

(Publicado en Anotações para um Apocalipse - Anotaciones para un apocalipsis, 1964)


I


La Fiera volverá, con su rostro de trenzas de plata, desnuda sobre el mundo. La Fiera volverá, metálica en la convulsión de las tempestades, musgosa como la noche de los jarrones de sangre, fría como el pánico de las arenas menstruadas y la ceguera fija contra un reloj antiguo. Un sueño asírio, es nuestra dimensión. Un cráneo amargo, velando con la inconstancia del sarcasmo en medio de emboscadas de insectos, un cráneo azul y surcado, a la ventana en los momentos de espera, un cráneo negro y fijo, separado de las manos que lo amparan por tubos y esfumando los bronquios de la memoria - así se solidificaran las vertiginosas jugadas sobre el barro divino. El incesto es una tempestad de lunas gelatinosas y la más bella aspiración de los miembros disociados. En cada órbita una avalancha de campanas fértiles y de arcángeles terrestres por la sombra. El incesto es el sueño de una matriz convulsiva y la más profunda ansia de las cigarras. Vulvas de cemento armado y urnas ensangrentadas, vaginas impasibles contra un cielo de veludo, guardianes de océanos imposibles. Millones de láminas sirven de puente para los deseos obscuros - la más afilada traba a nuestra Verdad.



Tanussi Cardoso


DEL APRENDIZAJE DEL AIRE

Imaginemos el aire suelto en la atmósfera
el aire inexistente a la luz de los ojos
imaginemos el aire sin sentirlo
sin el sofocante olor de las abejas
el aire sin cortes sin fronteras
el aire sin el cielo
el aire del olvido
imaginémoslo fotografiado
fantasma sin textura
moldura inerte
cuadro de sugestiones y apariencias
imaginemos el aire
paisaje blanco sin el poema
vacuo impregnado de Dios
el aire que sólo los ciegos ven
el aire el silencio de Bach
Imaginemos el amor
así




DO APRENDIZADO DO AR

imaginemos o ar solto na atmosfera
o ar inexistente à luz dos olhos
imaginemos o ar sem senti-lo
sem o sufocante cheiro de abelhas e zinabre
o ar sem cortes e fronteiras
o ar sem o céu
o ar de esquecimentos
imaginemos fotografá-lo
fantasma sem textura
moldura inerte
quadro de sugestões e aparências
imaginemos o ar
paisagem branca sem o poema
vácuo impregnado de Deus
o ar que só os cegos vêem
o ar silêncio de Bach
imaginemos o amor
assim como o ar



Herbert Emanuel



RES

(Fragmento)


Lo real

con sus dos mil círculos
concéntricos
sus formas de agua
su gula de caos
desde la nada
lo real
corre(en)ti
es tu líquida morada


Lo real

con su aire espeso
sus sobras (pliegues) del cuerpo
lo incestuoso
lo injertado
a tiros de quema-ropa
lo real te provoca
te enfurece



Lo real

con su insecto de luz
se abre en piedra
con su faro nos conduce
con su furia nos enreda


Lo real - ¿crees? -


res
ist
e



RES

o real
com seus dois mil círculos
concéntricos
suas formas de agua
sua gula de caos


desde o nada
este real
corre(em)ti
é tua líquida morada


o real
com seu ar espesso
suas sobras (dobras) do corpo
o incesto
o enxerto
com tiros à queima-roupa
este real te provoca
ferve teus nervos


o real


com seu inseto de luz
abre-se em pedra
com seu faro nos conduz
com sua fúria nos enreda


o real – crês? –


res
ist
e




Sandra Santos


EL DISFRAZ


El disfraz testimonio
de hablas no grabadas
actas no leídas

el disfraz vistiendo
una percha que escondía
un clavo oxidado

el disfraz en luto una sentencia
muda

lo general
poco a poco
olvidando todo

el disfraz y el agujero de la bala
en la solapa de la muerte


O Capote


o capote testemunhava

falas não gravadas
atas não lidas

o capote vestia
um cabide que escondia
um prego enferrujado

o capote em luto sentenciava
mudo

e o general
pouco aos poucos
esquecia tudo

o capote e o furo da bala
na lapela da morte



SOBRE O TRADUTOR
Leo Lobos (Santiago de Chile, 1966). Artista multifacetado. Poeta, ensaísta, tradutor e artista visual. Laureado UNESCO-Aschberg de Literatura 2002. Realiza uma residência criativa em CAMAC, Centre d´Art Marnay Art Center en Marnay-sur-Seine, Francia, nos anos de 2002-2003, com apoio do Fundo Internacional para a Cultura e a Fundacão francesa Frank Ténot. Realizou exposições de seus desenhos, pinturas e uma residência criativa, nos anos de 2003 até começo de 2006, no centro de cultura Jardim das Artes, em Cerquilho, SP, Brasil. Publicou, entre outros: Cartas de más abajo (1992), +Poesía (1995), Perdidos en La Habana y otros poemas(1996), Ángeles eléctricos (1997), Camino a Copa de Oro (1998), Turbosílabas. Poesía Reunida 1986-2003 (2003), Un sin nombre (2005), Nieve (2006), Vía Regia (2007), No permitas que el paisaje este triste (2007). Sua obra foi sido traduzida parcialmente ao português, inglês, italiano, árabe, francês e holandês. Suas fotografías, ensaios, desenhos e poemas foram publicados em revistas e antologias no Chile, Argentina, Peru, Brasil, Cuba, Estados Unidos, México, Tunísia, Espanha, Portugal, França, Itália e Alemanha. Como tradutor em língua portuguesa, realizou versões em castelhano de autores como Roberto Piva, Hilda Hilst, Claudio Willer, Tanussi Cardoso, Helena Ortiz, José Castelo entre otros. Seus desenhos, poemas visuais e pinturas fazem parte de coleções, particulares e públicas, no Chile, México, Estados Unidos, Brasil, Espanha e França. Em 2003 recebeu bolsa artística do Fundo Nacional da Cultura e das Artes do Ministerio de Educação do Chile e, em 2008, bolsa de criação para escritores profissionais do Conselho Nacional da Cultura e das Artes do Chile. Fez parte da equipe de produção do V Encontro Internacional de poetas CHILEPOESIA, em 2008 e 2009, um dos principais festivais de poesía da América hispânica. Gestor de projetos na Corporación Cultural e Centro Cultural Chimkowe de Peñalolén, nos anos de 2009-2012. Co-editor da coleção de poesía INSTANTE ESTANTE, projeto com curadoria de Sandra Santos, que lançou 17 títulos de poesia na Feira Internacional do Livro de Porto Alegre, Brasil, em 2012.. Participou do V Festival Quebramar de Artes Integradas em Macapá, Brasil, em 2012. Atualmente, é gerente de gestão cultural da Fundação Hoppmann-Hurtado e do Espaço Cultural Taller Siglo XX - Yolanda Hurtado, em Santiago do Chile, cidade onde reside.


1 comentários:

  1. Parabéns pessoal, muito bom conhecer um trabalho tão lindo. Abraços

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