11.10.13

Poesia traduzida - Carlos Aldazábal

Carlos Aldazábal
Carlos Aldazábal



Poesia de Carlos Aldazábal
traduzida por Sandra Santos



Motivos

Nada fácil perder tantas peleias
vencer as tarefas cotidianas,
decidir-se a viver com a náusea até a nuca.

Ressuscitar por dia, por minuto,
reencarnado em folhagem ou formiga,
ressuscitar contra relógio na descida
para evitar morrer de dupla morte.

Não é possível afrouxar: assim é o jogo,
esta sutil condenação de continuar nascendo
apesar dos outros.

Por isso é que persisto - disfarçado de palhaço
porque o riso e o amor são as escadas
que tentamos sem medo, mesmo resvalando.

Quero dizer:

teus olhos em mim se fixaram,
e por isso vale a pena todo sacrifício.


Motivos

No es fácil perder tantas peleas,
remontar las tareas cotidianas,
decidirse a vivir con la náusea en la nuca.

Resucitar por día, por minuto,
reencarnado en helecho o en hormiga,

resucitar contrarreloj en la caída
para evitar morir de doble muerte.

No es posible aflojar: así es el juego,
esta sutil condena de continuar naciendo
a pesar de los otros.

Por eso es que persisto en mi disfraz de circo,
porque la risa y el amor son escaleras
que trepamos sin miedo mientras nos resbalamos.

Quiero decir:

tus ojos me han mirado,
y así vale la pena tanto esfuerzo.


(in Piedra al Pecho)


Empacho

Tragando-me a saliva sanguinolenta
na pequenez impotente de um inseto

a história me é indigesta.


Empacho

Tragándome la saliva roja
en la pequeñez impotente del insecto

la historia me indigesta.

(in El Banco esta Cerrado)


Carlos Aldazábal

( tradução: Sandra Santos )

Carlos Aldazábal nasceu em Salta, Argentina. Ganhador de vários prêmios literários em seu país: obteve o Prímer Premio Regional de Poesía de la Secretaría de Cultura de la Nación e o Segundo Concurso “Identidad, de las huellas a la palavra”, organizado pelas Avós da Praça de Maio. Publicou os livros de poesia La soberbia del monje (1996), Por qué queremos ser Quevedo (1999), Nadie enduela su voz como plegaria (2003), El caseiro (2007), Heredarás la tierra (2007), El banco está cerrado (2010) e Hain. El mundo selknam en poesía e historieta (2012). Coordena o Espaço Literário Juan L. Ortiz, do Centro Cultural de Cooperação Floreal Gorini, em Buenos Aires.
É um dos fundadores do projeto editorial El Suri Porfiado www.elsuriporfiado.blogspot.com e da revista La costurerita www.la-costurerita.com.ar

31.8.13

Poesia traduzida - Fredy Yezzed




Poesia de Fredy  Yezzed
traduzida por Sandra Santos



NUNCA PUDE SAIR-ME DO SUL. De seus acontecimentos invisíveis. Segui sendo essa migração ao fundo de mim mesmo. Não mover-me, esta travessia contínua. Morrer-me, muitas e seguidas vezes, uma tarefa simples.

Muletas, levo-as estaqueadas por dentro. Maletas, estas sempre descosturadas. O salto mais alto foi efeito da embriaguez do tempo. E o sonho mais caro, não ser dispensado de onde sempre.

Um pião que gira anti-horário. Uma ferramenta obsoleta.
Uma biruta que aponta para o céu.

Me pego ancorado nisto de assistir à iluminação dos pássaros.

Assim é este mal-estar do Sul.



NUNCA ME HE IDO DEL SUR. De sus acontecimientos invisibles. Siempre he sido una migración al fondo de sí mismo. No moverme ha sido una travesía constante. Y morir muchas veces, seguidamente, ha sido una tarea simple.

Las muletas las llevo puestas por dentro. Las maletas siempre estuvieron descosidas. El salto más alto fue el de la ebriedad del tiempo. Y el sueño más importante no ser despedido de donde siempre.

Un trompo que gira al revés. Un destornillador obsoleto. Una veleta que señala el cielo.

Me quedo anclado en esto de ver la luz de los pájaros.

Así es este malestar del Sur.


Fredy Yezzed

( tradução: Sandra Santos)


FREDY YEZZED - COLÔMBIA

Nasceu em Bogotá. Lincenciado em Línguas Modernas pela Universidad de La Salle e doutorando em Letras pela Universidad de Buenos Aires onde estuda as raízes do poema em prosa argentino: Lugones, Guiraldes, Girondo. Seu primeiro livro de poesia "La sal de la locura" foi distinguido na Argentina - pelos jurados Javier Adúriz, María del Carmen Colombo e Jorge Boccanera - com o Premio Nacional de Poesía Macedonio Fernández 2010, publicado em Buenos Aires nesse mesmo ano. Também premiado com o XII Premio Nacional Universitario de Cuento, Universidad Externado de Colombia, 2001; Premio Nacional de Cuento Ciudad de Bogotá, 2003; Premio Nacional Poesía Capital, Casa de Poesía Silva, 2005; e XXVII Concurso Nacional Metropolitano de Cuento, Universidad Metropolitana de Barranquilla, 2006.

Publicou também os estudos "Párrafos de aire", primeira antologia do poema em prosa colombiano, pela Editora da Universidad de Antioquia, Medellín, 2010.


16.7.13

Poesia traduzida - Sandra Santos por Rosetta Savelli


Sandra Santos


Poesia de Sandra Santos traduzida ao italiano por Rosetta Savelli



Il TRAVESTIMENTO di SANDRA SANTOS

Il travestimento è testimonianza
di parole non registrate
e di atti non letti

nell'indossare il travestimento
si nascondeva un gancio,
un chiodo arrugginito

il travestimento nascondeva
il lutto in una frase
muta

così che in generale
a poco a poco
si dimenticava tutto
il travestimento come il foro di proiettile
sul bavero della morte


Poesia contemporanea brasiliana - Rosetta Savelli
Traduzione in Lingua Italiana di ROSETTA SAVELLI

(Presentati e tradotti da Leo Lobos)


10.6.13

Festival Latinoamericano de Poesía en el Centro

Festival de Poesia
Festival Latinoamericano de Poesía en el Centro - Buenos Aires


V Festival Latinoamericano de Poesía en el Centro


Centro Cultural de la Cooperación Floreal Gorini - Buenos Aires

O V Festival Latinoamericano de Poesía en el Centro propõe uma reflexão sobre a situação atual da poesia argentina e latino-americana, convocando vozes representativas de distintas tradições, que se expressam através de sua produção artística e teórica.

Comissão Organizadora: Susana Szwarc (Chaco), Nara Mansur (Cuba), Vicente Muleiro (Buenos Aires), Silvia Castro (Río Negro), María Malusardi (Buenos Aires), Juano Villafañe (Buenos Aires), Inés Manzano (Buenos Aires), Carlos J. Aldazábal (Salta) y Julián Axat (La Plata).


sandra santos blog


Sandra Santos é a idealizadora do Instante Estante, projeto de incentivo à leitura que divulga poesia brasileira e latino-americana, e distribui livros gratuitamente em bibliotecas comunitárias, escolas, internet (através de e-books) e intervenções urbanas nas capitais. É diretora do Espaço Cultural Castelinho do Alto da Bronze - uma lenda urbana da cidade de Porto Alegre - onde acontece exposições, lançamentos e performances artísticas, com entrada franca. Realiza oficinas de escultura às comunidades indígenas e coordena o projeto “Casa Naîf”, atelier de passagem, para hospedar e incentivar a produção artística de pintores primitivistas do país e exterior.


Alessio Brandolini nasceu em 1958 em Frascati (Roma) e viveu seus primeiros vinte anos em Monte Cómpatri. Vive em Roma, onde se licenciou em Letras modernas. Publicou os livros de poesia: L’alba a piazza Navona (em 7 poeti del Premio Montale, 1992), Divisori orientali (2003, «Premio Alfonso Gatto»), Poesie della terra (2004), Il male inconsapevole (2005), Mappe colombiane (2007), Tevere in fiamme (2008, «Premio Sandro Penna») e Il fiume nel mare (2010, «Finalista Premio Camaiore»). Em março de 2013, o livro de contos "Un bosco nel muro". Desde 2006, coordena «Fili d’aquilone», revista web de “imágenes, ideas y poesía”. Organiza leituras e encontros literários, sobre tudo com o grupo «I libri in testa». Em 2011, fundou a editora «Edizioni fili d’Aquilone».



Rodolfo Dada nasceu em 5 de março de 1952, em San José. Estudou  Literatura e Ciências da Linguagem na Universidade de Costa Rica. Foi Superintendente do Mercado Oriental de Managua, durante os primeiros anos da Reconstrução da Nicaragua e atualmente trabalha no Hotel Laguna de Tortuguero, no Caribe de Costa Rica. Seu sobrenome vem de sua ascendência Palestina. Em 2004, obteve o Premio Nacional de Poesía de seu país. Algumas de suas obras publicadas são: Cuajiniquil; Abecedario del Yaqui (Premio Carmen Lyra, 1981), Kotuma, la Rana y la Luna (Premio Una-Palabra, 1984), La voz del caracol (Literatura infantil), De azul el mar (Premio Nacional de Poesía “Aquileo J. Echeverría”, 2004) y El mar de la selva (Mención de Honor, Premio Casa de las Américas, 2009).



Jose Angel Leyva nasceu em  Durango, México, em 1958. É poeta, escritor, jornalista, editor e gestor cultural. Publicou mais de 15 livros, em sua maioria de poesia, alguns traduzidos ao italiano, francês, inglês, português e parcialmente ao polonês. Diretor de importantes revistas culturais,  entre elas Mundo, culturas y gente, Alforja e La Otra. Tem sido laureado com importantes prêmios nacionais como poeta e como jornalista cultural. Também foi diretor e fundador de coleções editoriais. Entre seus livros de poesia, destacam-se: Catulo en el destierro, Entresueños, El espinazo del Diablo, Habitantos, Aguja, Duranguraños, Tres cuartas partes, além das antologias Carne de imagen e Destiempo, que reúnem parte importante de sua obra.



Omar Lara nasceu em Nueva Imperial, Chile, 1941. Autor de mais de vinte livros de poesia, entre eles: Oh Buenas Maneras (Premio Casa de las Américas, La Habana 1975), Voces de Portocaliu, Papeles de Harek Ayun (Premio Casa de América, Madrid 2007). Tradutor de romeno. Fundador e diretor da revista TRILCE. Em 2007, obteve o Premio Internacional de Poesía Ciudad de Trieste e, em 2012, o Premio Internacional Rafael Alberti. Reside em Concepción, Chile.




Xavier Oquendo Troncoso nasceu em Ambato-Ecuador, 1972. Jornalista e Doutor em Letras e Literatura. Estudos em editoração de livros em Madrid. Publicou 12 títulos, entre poesia, conto,  literatura infantil e antologias da jovem literatura do Equador. Seu último livro “Salvados del naufragio” é uma recompilação de sua poesia, de 15 anos de trabalho. Representante do Equador em importantes encontros poéticos e literários na Espanha, México, Colômbia, Chile e Peru. Organizador das quatro edições das Jornadas de poesía joven del Ecuador e do Encuentro Internacional de poetas “poesía en paralelo cero”. Obteve diversos prêmios nacionais como  “Pablo Palacio”, em conto, e  Premio Nacional de poesía, em 1993. Integra antologias nacionais e internacionais. Recebeu de seu município, em 1999, a condecoração Juan León Mera, por toda sua obra literária e de difusão. É editor, catedrático e editorialista de diversos meios de comunicação. Parte de sua poesia tem sido traduzida ao italiano e ao português.




Fredy Yazzed nasceu em Bogotá, Colombia, 1979. Como estudioso e pesquisador de literatura, escreveu Párrafos de aire, primeira antologia do poema em prosa colombiano, publicado pela editora da Universidad de Antioquia (Medellín, 2010). Publicou os livros de poesia: La sal de la locura, (Premio Nacional de Poesía Macedonio Fernández,Buenos Aires, 2010) e El diario inédito del filósofo vienés Ludwig Wittgenstein (Ediciones Del Dock, Buenos Aires, 2012). Atualmente, cursa doutorado em Letras na Universidade de Buenos Aires, onde estuda as raízes do poema em prosa argentino.



Convidados das Províncias

Niní Bernardello (Tierra del Fuego), Emiliano Cruz Luna (La Plata), Rodolfo Godino (Córdoba), Ana María Pedernera (Lobos), Ramón Minieri (Río Negro), Alberto Tasso (Santiago del Estero), Priscila Vallone (Tierra del Fuego),Tomás Watkins (Neuquén)



Convidados da cidade de Buenos Aires

Daniel Calmels, Dolores Etchecopar, Javier Galarza, Juan García Gayo, Noé Jitrik, Claudia López, Lucio Madariaga, Jorge Ariel Madrazo, Eduardo Mileo, Hugo Mujica, Martín Rodríguez, Mariano Schuster, Emmanuel Taub, Juano Villafañe, Paulina Vinderman



3.6.13

Poesia Gaúcha Contemporânea


Poesia gaúcha contemporânea - Assembleia Legislativa do RGS

Lançamento da Coletânea de Poesia Gaúcha Contemporânea da Assembleia Legislativa do RGS


A obra é comemorativa aos 100 anos da Biblioteca Borges de Medeiros. O livro é gratuito: a edição impressa será distribuída prioritariamente às bibliotecas de instituições públicas e a versão digital ficará disponível no portal da biblioteca da Assembleia.

Comissão Editorial:

Caio Ritter (AGES), Dilan Camargo (organizador),
Jussara Haubert Rodrigues (CRL),
Márcia Ivana de Lima e Silva (IL/URFRGS),
Maria Elisa Carpi (poeta).


A cerimônia de lançamento aconteceu no Teatro Dante Barone da Assembleia Legislativa.

Integro o quadro dos 91 poetas gaúchos da década:

Ademir Antonio Bacca, Alexandre Brito, Álvaro Santi, Ana Mariano, André Dick, Armindo Trevisan, Berenice Sica Lamas, Carlos Eduardo Caramez, Carlos Nejar, Carlos Saldanha Legendre, Carlos Urbim, Celia Maria Maciel, Celso Gutfreind, César Pereira, Cinthya Verri, Claudia Schroeder, Cleci Silveira, Cleonice Bourscheid,Deisi Scherer Beier, Denise Freitas, Diego Grando, Diego Petrarca, Dilan Camargo, dois Santos dos Santos,Eduardo Dall'Alba, Eduardo Sterzi, Élvio Vargas, Escobar Nogueira,Everton Behenck, Fabrício Carpinejar , Flávio Luis Ferrarini, Gláucia de Souza, Guto Leite, Humberto Zanatta, Isaac Starosta, Israel Mendes, Ivanise Mantovani, J. C. Cardoso Goularte, Jaime Medeiros Júnior, Jaime Vaz Brasil, Jaime Paviani, Joaquim Moncks, Jorge Adelar Finato, José Antônio Silva, José Eduardo Degrazia, José Hildebrando Dacanal, José Weis, Laís Chaffe, Lau Siqueira, Liana Timm, Lorena Martins, Lucas Reis Gonçalves, Lúcia Bins Ely, Luiz Coronel, Luiz de Miranda, Lya Luft, Marco Celso H. Viola, Marco de Menezes, Maria Carpi, Maria do Carmo Campos, Marilice Costi, Mario Pirata, Marlon de Almeida, Marô Barbieri, Martha Medeiros, Nei Duclós, Nilva Ferraro, Oracy Dornelles, Orlando Fonseca, Ozy Pinheiro Souto, Paula Taitelbaun , Paulo Becker, Paulo Bentancur, Paulo Roberto do Carmo, Paulo Seben, Pedro Marodin, Pedro Stiehl, Raul Machado, Ricardo Primo Portugal, Ricardo Silvestrin , Roberto Medina, Ronald Augusto, Rossyr Berny, Sandra Santos, Sergio Napp, Sidnei Schneider, Susana Vernieri, Suzana Vargas, Tânia Lopes, Telma Scherer, Vitor Biasoli.



 fonte: al.rs.gov.br
 foto:  Marcelo Bertani



livro grátis
livro grátis














www.al.rs.gov.br/biblioteca






1.6.13

Projeto Instante Estante de Incentivo à Leitura


leitura
abrindo o evento de lançamento da coleção Instante Estante


Projeto Instante Estante de Incentivo à leitura - livrosgrátis




O Projeto reúne vários nomes da poesia contemporânea que foram convidados a integrar as atividades da Feira do Livro de Porto Alegre: Alexandre Brito, Alice Ruiz, César Pereira, Juliana Meira, Laís Chaffe, Lau Siqueira, Mario Pirata, Nydia Bonetti, Ricardo Portugal, Ricardo Silvestrin, Wilmar Silva (Brasil). Antonio Arroyo Silva ( Ilhas Canárias), E. M. de Melo e Castro (Portugal) e Leo Lobos (Chile). E eu(Sandra Santos, curadora).
O  programa UniVerso ,do Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tiambém esteve presente e realizou sua primeira edição na Feira do Livro, com a participação dos poetas Alice Ruiz, E. M. de Melo e Castro e Leo Lobos que falaram de literatura e leram poemas de seus livros do Projeto Instante Estante.
A atividade foi uma parceria do UniVerso com o Instante Estante, através do Castelinho do Alto da Bronze, patrocinador do projeto e que viabilizou a vinda dos poetas a Porto Alegre.


mesa de autógrafos do lançamento

A Coleção Instante Estante é um projeto de incentivo à leitura da Castelinho Edições, editora sem fins lucrativos, patrocinada exclusivamente pelo Castelinho do Alto da Bronze Espaço Cultural. O INSTANTE ESTANTE distribui livros novos, editadatos especialmente para o projeto. Os Livros chegam ao leitor gratuitamente, seja através da "Intervenção Urbana nas Capitais", seja pela distribuição em pontos de leitura e bibliotecas comunitárias.


Leo Lobos, Alice Ruiz e Melo e Castro


As intervenções Urbanas do Instante Estante já distribuiram livros em Porto Alegre: 120 livros durante a 56ª Feira do Livro, em 2010; em Brasília: 120 livros no Verão Literatura Brasília, em 2011; em João Pessoa: 80 livros no Agosto das Letras, em 2011; em Belo Horizonte: 120 livros na Intervenção Urbana da Praça Sete, em 2011; em Porto Alegre: 120 livros no estande da Câmara Municipal, 57ª Feira do Livro, 2011; no Forum Social Mundial 2012: 120 livros no Acampamento da Juventude, 2012. São editados de 300 a 450 livros por título. Além de mais de 800 kits enviados a bibliotecas do interior do Amazonas, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraíba, Minas Gerais, São Paulo. Também Bolívia, Peru e Argentina.



autógrafos - Instante Estante













30.5.13

Poesia traduzida - Mario Bojórques

Mario Bojórques



Poesia de Mario Bojórquez
traduzida por Sandra Santos



Chinatown

o ancião - a cerca do fogão
trincha o pato
depois despedaça
sobre a tábua engordurada
- o velho Won Ton
conhece todos os fungos comestíveis
e todas as pimentas - disse
ao mesmo tempo que
me dava água na boca


Chinatown


El anciano se acerca al fogón
y trincha el pato
que después partirá
sobre la tabla aceitada.
-El viejo Won Ton
conoce todos los hongos
y todas las pimientas- dice
mientras
mi lengua se hace agua.


Mario Bojórquez

*do livro Pretzels


( tradução: Sandra Santos )


Mario Bojórquez ( Los Mochis, Sinaloa - México). Poeta, ensaísta e tradutor. escritor com vários prêmios literários como o Premio Estatal de Literatura de Baja California (1991), Premio Nacional de Poesía Clemencia Isaura (1995), Premio Nacional de Poesía Enriqueta Ochoa (1996), Premio de Poesía Abigael Bohórquez (1996), Premio Nacional de Poesía Aguascalientes (2007), Premio Bellas Artes de Ensayo Literario José Revueltas (2010), Premio Alhambra de Poesía Americana (2012) entre outros. Obras: Pájaros sueltos (1991), Contradanza de pie y de barro (1996), Diván de Mouraria (1999), Pretzels (2005), El deseo postergado (2007), Y2k (2009),"El cerro de la memoria" (2010),"El rayo y la memoria" (2012).



28.5.13

Poesia brasileira traduzida por Leo Lobos





Quatro poetas brasileiros apresentados e traduzidos por Leo Lobos:


Claudio Willer, Tanussi Cardoso, Herbert Emanuel e Sandra Santos


A diversidade de linguagens - longe de ser um castigo, como supõe o mito de Babel - se faz presente para que passemos com êxito pelo "teste do estrangeiro". A teoria e a prática se desafiam e se complementam, tal que a reflexão sobre a tradução seja inseparável da experiência de traduzir. Esta seleção de poesia brasileira contemporânea se apresenta como possibilidade de descobrimento, de encontro e reencontro com o Brasil de nossos dias. Tentei buscar sentido por sentido e não letra por letra; ou seja, significação ao ser pronunciado em castelhano, um som português. Estes poetas, Claudio Willer, Tanussi Cardoso, Herbert Emanuel e Sandra Santos, nos mostram parte deste imenso mar orgânico e vivo da escrita brasileira.Compartilho mundos e imaginários, reais e virtuais, dos quais eles também se nutrem. Sim, eles ouvem música erudita, mas também Rap e Rock and roll. Gostam de cinema, sem deixar de navegar na internet e de explorar meios como blog ou twitter, ampliando suas redes de comunicação virtual com outros poetas. Criam revistas de papel e eletrônicas, se aventuram no campo da videoarte. Enfim, são autores atualizados que insistem em viver seu tempo, com direito a explorar todas as possibilidades oferecidas pela tecnologia, verbal e não-verbal, para a criação em nossa época. Navegantes que costumamos frequentar o Brasil, nos descobrimos surpreendidos e maravilhados ante o tamanho do domínio ativo do idioma do Brasil. Significação e som, pois, se em algo diferem as línguas é no recorte fonético que fazem dos sons pronunciados pelo ser humano. O desejo de compreender o diferente e a necessidade de aproximar-se da alteridade sem anulá-la. Compreender é traduzir. Tentar entender o estrangeiro. A poesia desses autores é arte. E é esta visão que deve perdurar. A proveitosa sensação de estar frente a uma legítima expressão de vida e de linguagem. Isso que antigamente se chamava poesia.



Claudio Willer


ANOTACIONES PARA UN APOCALIPSIS

(Publicado en Anotações para um Apocalipse - Anotaciones para un apocalipsis, 1964)


I


La Fiera volverá, con su rostro de trenzas de plata, desnuda sobre el mundo. La Fiera volverá, metálica en la convulsión de las tempestades, musgosa como la noche de los jarrones de sangre, fría como el pánico de las arenas menstruadas y la ceguera fija contra un reloj antiguo. Un sueño asírio, es nuestra dimensión. Un cráneo amargo, velando con la inconstancia del sarcasmo en medio de emboscadas de insectos, un cráneo azul y surcado, a la ventana en los momentos de espera, un cráneo negro y fijo, separado de las manos que lo amparan por tubos y esfumando los bronquios de la memoria - así se solidificaran las vertiginosas jugadas sobre el barro divino. El incesto es una tempestad de lunas gelatinosas y la más bella aspiración de los miembros disociados. En cada órbita una avalancha de campanas fértiles y de arcángeles terrestres por la sombra. El incesto es el sueño de una matriz convulsiva y la más profunda ansia de las cigarras. Vulvas de cemento armado y urnas ensangrentadas, vaginas impasibles contra un cielo de veludo, guardianes de océanos imposibles. Millones de láminas sirven de puente para los deseos obscuros - la más afilada traba a nuestra Verdad.



Tanussi Cardoso


DEL APRENDIZAJE DEL AIRE

Imaginemos el aire suelto en la atmósfera
el aire inexistente a la luz de los ojos
imaginemos el aire sin sentirlo
sin el sofocante olor de las abejas
el aire sin cortes sin fronteras
el aire sin el cielo
el aire del olvido
imaginémoslo fotografiado
fantasma sin textura
moldura inerte
cuadro de sugestiones y apariencias
imaginemos el aire
paisaje blanco sin el poema
vacuo impregnado de Dios
el aire que sólo los ciegos ven
el aire el silencio de Bach
Imaginemos el amor
así




DO APRENDIZADO DO AR

imaginemos o ar solto na atmosfera
o ar inexistente à luz dos olhos
imaginemos o ar sem senti-lo
sem o sufocante cheiro de abelhas e zinabre
o ar sem cortes e fronteiras
o ar sem o céu
o ar de esquecimentos
imaginemos fotografá-lo
fantasma sem textura
moldura inerte
quadro de sugestões e aparências
imaginemos o ar
paisagem branca sem o poema
vácuo impregnado de Deus
o ar que só os cegos vêem
o ar silêncio de Bach
imaginemos o amor
assim como o ar



Herbert Emanuel



RES

(Fragmento)


Lo real

con sus dos mil círculos
concéntricos
sus formas de agua
su gula de caos
desde la nada
lo real
corre(en)ti
es tu líquida morada


Lo real

con su aire espeso
sus sobras (pliegues) del cuerpo
lo incestuoso
lo injertado
a tiros de quema-ropa
lo real te provoca
te enfurece



Lo real

con su insecto de luz
se abre en piedra
con su faro nos conduce
con su furia nos enreda


Lo real - ¿crees? -


res
ist
e



RES

o real
com seus dois mil círculos
concéntricos
suas formas de agua
sua gula de caos


desde o nada
este real
corre(em)ti
é tua líquida morada


o real
com seu ar espesso
suas sobras (dobras) do corpo
o incesto
o enxerto
com tiros à queima-roupa
este real te provoca
ferve teus nervos


o real


com seu inseto de luz
abre-se em pedra
com seu faro nos conduz
com sua fúria nos enreda


o real – crês? –


res
ist
e




Sandra Santos


EL DISFRAZ


El disfraz testimonio
de hablas no grabadas
actas no leídas

el disfraz vistiendo
una percha que escondía
un clavo oxidado

el disfraz en luto una sentencia
muda

lo general
poco a poco
olvidando todo

el disfraz y el agujero de la bala
en la solapa de la muerte


O Capote


o capote testemunhava

falas não gravadas
atas não lidas

o capote vestia
um cabide que escondia
um prego enferrujado

o capote em luto sentenciava
mudo

e o general
pouco aos poucos
esquecia tudo

o capote e o furo da bala
na lapela da morte



SOBRE O TRADUTOR
Leo Lobos (Santiago de Chile, 1966). Artista multifacetado. Poeta, ensaísta, tradutor e artista visual. Laureado UNESCO-Aschberg de Literatura 2002. Realiza uma residência criativa em CAMAC, Centre d´Art Marnay Art Center en Marnay-sur-Seine, Francia, nos anos de 2002-2003, com apoio do Fundo Internacional para a Cultura e a Fundacão francesa Frank Ténot. Realizou exposições de seus desenhos, pinturas e uma residência criativa, nos anos de 2003 até começo de 2006, no centro de cultura Jardim das Artes, em Cerquilho, SP, Brasil. Publicou, entre outros: Cartas de más abajo (1992), +Poesía (1995), Perdidos en La Habana y otros poemas(1996), Ángeles eléctricos (1997), Camino a Copa de Oro (1998), Turbosílabas. Poesía Reunida 1986-2003 (2003), Un sin nombre (2005), Nieve (2006), Vía Regia (2007), No permitas que el paisaje este triste (2007). Sua obra foi sido traduzida parcialmente ao português, inglês, italiano, árabe, francês e holandês. Suas fotografías, ensaios, desenhos e poemas foram publicados em revistas e antologias no Chile, Argentina, Peru, Brasil, Cuba, Estados Unidos, México, Tunísia, Espanha, Portugal, França, Itália e Alemanha. Como tradutor em língua portuguesa, realizou versões em castelhano de autores como Roberto Piva, Hilda Hilst, Claudio Willer, Tanussi Cardoso, Helena Ortiz, José Castelo entre otros. Seus desenhos, poemas visuais e pinturas fazem parte de coleções, particulares e públicas, no Chile, México, Estados Unidos, Brasil, Espanha e França. Em 2003 recebeu bolsa artística do Fundo Nacional da Cultura e das Artes do Ministerio de Educação do Chile e, em 2008, bolsa de criação para escritores profissionais do Conselho Nacional da Cultura e das Artes do Chile. Fez parte da equipe de produção do V Encontro Internacional de poetas CHILEPOESIA, em 2008 e 2009, um dos principais festivais de poesía da América hispânica. Gestor de projetos na Corporación Cultural e Centro Cultural Chimkowe de Peñalolén, nos anos de 2009-2012. Co-editor da coleção de poesía INSTANTE ESTANTE, projeto com curadoria de Sandra Santos, que lançou 17 títulos de poesia na Feira Internacional do Livro de Porto Alegre, Brasil, em 2012.. Participou do V Festival Quebramar de Artes Integradas em Macapá, Brasil, em 2012. Atualmente, é gerente de gestão cultural da Fundação Hoppmann-Hurtado e do Espaço Cultural Taller Siglo XX - Yolanda Hurtado, em Santiago do Chile, cidade onde reside.


26.5.13

Conto de Clarice Lispector - Felicidade Clandestina


Clarice Lispector
Clarice Lispector



Matando baratas com Clarice - histórias de Felicidade Clandestina 


A QUINTA HISTÓRIA

Esta história poderia chamar-se "As Estátuas". Outro nome possível é "O Assassinato". E também "Como Matar Baratas". Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, "Como Matar Baratas", começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das "Estátuas". Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras - subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! - essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: "é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de..." - de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha  seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada".

A quinta história chama-se "Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim: queixei-me de barata

20.5.13

Galeria


arte naif
AUDREY HEPBURN de Eloir Amaro Jr



O artista naïf brasileiro Eloir Amaro Jr e suas incríveis babuszkas


em homenagem às estrelas de Hollywood: AUDREY HEPBURN no filme Bonequinha de Luxo, JULIE ANDREWS no filme Mary Poppins, VIVIAN LEIGH no filme E o Vento Levou, AMY WINEHOUSE, EDITH PIAF, CARMEM MIRANDA






arte naif
JULIE ANDREWS, de Eloir Amaro Jr



arte naif
VIVIAN LEIGH, de Eloir Amaro Jr




arte naif
AMY WINEHOUSE, de Eloir Amaro Jr




arte naif
EDITH PIAF, de Eloir Amaro Jr




arte naif
CARMEM MIRANDA, de Eloir Amaro Jr





visite o blog do artista Eloir Jr





12.5.13

Livros


Iara -sereia
ilustração do livro Uiara


Uiara, uma lenda da Amazônia, na coleção Poemitos, meu primeiro livro infantil


"arapongas dão marteladas
tocam gongo na mata
sinfonia de matracas
vibrando ao som de uma ária
que vem do canto da Iara"

Sandra Santos


Vem de muito longe minha paixão pelo universo indígena e pelos mitos brasileiros. A convivência com os Guarani e Kaigangs deixou histórias dormitando no meu imaginário. O convite da Laís Chaffe para integrar a coleção Poemitos foi a chance de despertá-las.

UIARA e UAKTI não foram escolhidos ao acaso - num formato vira-vira, os dois mitos "conversam" entre si. Tanto eu quanto Alexandre Brito, autor de UAKTI, temos estreita relação com a música. Os dois títulos se unem para resgatar da cosmogonia indígena essas fantásticas lendas relacionadas ao canto e ao sopro. UAKTI fala de um índio com buracos no corpo, como uma flauta orgânica ao sabor do vento. UIARA, ou Iara, traz com ela todo o encanto da floresta Amazônica, do Peixe-boi e da Vitória Régia. UIARA pretende levar o leitor para um mundo de descobertas. E os pequenos exploradores sairão desse mato de mãos dadas, ansiosos por embarcar numa viagem de verdade, para ver in loco as estrepolias do sagui-leãozinho, as plantas carnívoras (de nome droseras) e, quem sabe, ouvir uma ária tão maravilhosa, que só o canto da Iara!
Uiara -  Uma lenda da Amazônia
Sandra Santos


livro: UIARA
autor: Sandra Santos
ilustração: Alexandre Oliveira

editora: Casa Verde









Série PoeMitos da Casa Verde, em mais uma edição da Festinha Cidade Poema - parceria entre o projeto homônimo e a FestiPoa Literária. Dedicada ao público infantil, principalmente crianças do pré-escolar e dos primeiros anos do Ensino Fundamental, a série reúne seis autores, em três livros doisem-um, estilo vira-vira. Os seis primeiros títulos são: Medusa/ Perseu (Laís Chaffe e Ana Mello), Uakti/Uiara (Alexandre Brito e Sandra Santos) e Vênus/Cupido (Christina Dias e Marô Barbieri). Os livros são ilustrados por Alexandre Oliveira e têm planejamento gráfico e capa de Guilherme Smee. Sempre em versos, as duplas de autores criaram livremente a partir de mitos e lendas complementares. Todos em letra bastão, os poemas são apresentados de forma a facilitar a leitura por parte das crianças pequenas, mas também atraem os maiores, apostando no humor e na leveza. A Série PoeMitos integra o projeto Cidade Poema, que programou diversas atividades para outubro e novembro. Durante a Feira do Livro, haverá encontro em parceria com o projeto Leitor de Rua, da escritora Marô Barbieri, das 15h às 16h30min do dia 5 de novembro (sábado); e conversa com os autores, seguida de sessão de autógrafos, dia 6 de novembro (domingo), às 17h, sempre no Cais do Porto. Cada livro dois-em-um tem um total de 24 páginas, formato 20 x 23 cm, miolo em papel couché liso 150g em quatro cores, capa em supremo 300g em quatro cores e com plastificação fosca e verniz localizado.


www.casaverde.com


5.5.13

Codigo Coletivo - Sandra Santos


CÓDIGO COLETIVO - poesia e QR CODE


Exposição Código Coletivo - Poesia capturada no celular


Exposição da artista plástica Sandra Santos no Memorial do Rio Grande do Sul é uma realização da Feira do Livro de Porto Alegre, da Câmara Riograndense do Livro, do Memorial do Rio Grande do Sul, da Secretaria do Rio Grande do Sul e tem ainda o apoio do Projeto Cidade Poema. Foram mais de cem poetas contemporâneos capturados no celular, através da tecnologia QR CODE e colados nos muros das Escolas.

A exposição desde o Castelinho do Alto da Bronze até ganhar o mundo!

Uma experiência poética em QR CODE, tipo de matrix barcode, que reuniu mais de 100 poetas contemporâneos. Cada poema resultou num codigo de barra bidimensional para ser projetado em telões, capturado e lido via celular, pelos visitantes. Os códigos também foram transformados em adesivos e colados em algumas escolas da cidade, assim como transformados em estampas de camisetas e canecas, sorteadas entre as escolas que participaram. O Codigo coletivo também foi apresentado na Sala Museu, do Centro Cultura CEEE Érico Veríssimo, dentro do Evento Literário Porto Poesia, a convite do amigo e escritor Celso Viola. Também ocupou duas salas do Memorial do Rio Grande do Sul, a convite da Feira do Livro de Porto Alegre. Recentemente, fez parte da programação da 6ª Primavera dos Museus, no Museu Nacional de Poesia de Belo Horizonte, a convite da amiga e poeta Regina Melo. A primeira exposição foi em 2011, no Castelinho, e nesta tive a parceria do projeto Cidade Poema, da amiga e poeta Laís Chaffe, para levar os Codigos em forma de adesivos, para colar nos corredores das escolas de Porto Alegre. O Codigo Coletivo também foi apresentado no premiado Projeto Terças Poéticas, do amigo e poeta Wilmar Silva, em Belo Horizonte.

Durante a exposição no Castelinho, várias escolas tiveram a oportunidade de visitar o Castelo, estudar os poetas participantes e concorrer aos brindes confeccionados especialmente para o evento: camisetas, canecas e adesivos com os poemas codificados para colar no próprio espaço escolar e reproduzir a experiência com seus celulares. os alunos que visitaram a exposição CÓDIGO COLETIVO, se divertiram "capturando" os poemas no celular e distribuindo por torpedo aos amigos.


Os poetas participantes:

Ademir Antonio Bacca - Ademir Assunção - Ademir Demarchi - Alberto Al-Chaer -Alexandre Brito - Allan Vidigal - Alma Welt - Alvaro Posselt - Ana Melo - Andrea Del Fuego -Andreia Laimer - Antonio Carlos Secchin - Armindo Trevisan - Astier Basilio - Augusto Bier - Barbara Lia - Barreto Poeta - Carlos Seabra - Celso Santana - Claudio Daniel - Cristina Desouza - Cristina Macedo - Diego Grando - Diego Petrarca - Dilan Camargo - E. M. De Melo e Castro - Edson Cruz - Eduardo Tornaghi - Elson Fróes - Estrela Ruiz Leminski - Fabio Bruggmann - Fabio Godoh - Fabricio Carpinejar - Floriano Martins - Frank Jorge - Frederico Barbosa - Gilberto Wallace Battilana - Glauco Mattoso - Gustavo Dourado - Hugo Pontes - Igor Fagundes - Isabel Alamar - Jacqeline Aisenman - Jiddu Saldanha - José Aluisio Bahia - José Antônio Silva - José Inácio Vieira de Melo - José Geraldo Neres - Juliana Meira - Jurema Barreto de Sousa - Laís Chaffe - Lau Siqueira - Leo Lobos - Leonardo Brasiliense - Liana Timm - Lucia Santos - Luis Serguilha - Luis Turiba - Luiz de Miranda - Mano Melo - Marcelo Ariel - Marcelo Moraes Caetano - Marcelo Soriano - Marcelo Spalding - Marcílio Medeiros - Marco Celso Ruffel Viola - Mario Pirata - Marko Andrade - Muryel de Zoppa - Nei Duclós - Nicolas Behr - Nydia Bonetti -Orlando Bona Fº - Paco Cac - Paula Taitelbaum - Paulo de Toledo - Paulo Henrique Frias - Paulo Prates Jr - Pedro Stiehl - Regina Mello - Renato de Mattos Motta - Ricardo Mainieri - Ricardo Portugal - Ricardo Pozzo - Ricardo Silvestrin - Rodrigo Garcia Lopes - Rogerio Santos - Romério Rômulo -Ronaldo Werneck - Sandra Santos - Sidnei Schneider - Silas Correa Leite - Susanna Busatto - Talis Andrade - Tchello de Barros -Telma Scherer - Tulio Henrique Pereira -Valeria Tarelho - Wasil Sacharuk -Wender Montenegro - Wilmar Silva 


Pegue seu celular e também participe dessa experiência: pause o vídeo e  e escaneie um código, a poesia é uma grata surpresa! (CODIGO COLETIVO no youtube: https://youtu.be/NmxeEm_mxQY )




Código Coletivo - Poesia e tecnologia



Poesia capturada no celular - Código Coletivo



Poesia escaneada  QR CODE



25.4.13

Conto de Balzac - A obra-prima





Le Chef d’œuvre - A obra-prima ignorada de Honoré de Balzac


Este conto faz parte da Comédia Humana e exerceu verdadeira fascinação entre os artistas. Picasso, além de trabalhar nas ilustrações da edição de 1927, chegou a instalar-se no prédio que supostamente serviu de cenário para a história de Balzac. Neste prédio pintaria Guernica, sua própria obra-prima. Mudemo-nos, então, para a "rue des Grands-Augustins", em Paris:


I
GILLETTE

Em fins de 1612, numa fria manhã de dezembro, um rapaz, cujo vestuário era de modesta aparência, passeava em frente à porta de uma casa situada na rue des Grands Augustiniens, em Paris. Depois de por muito tempo caminhar por aquela rua com a irresolução de um amante que não ousa apresentar-se em casa da sua primeira conquista, por mais fácil que ela tivesse sido, acabou por transpor o umbral daquela porta e perguntou se mestre Francisco Porbus estava em casa. Ante a resposta afirmativa que lhe foi dada por uma velha entretida em varrer uma sala baixa, o jovem subiu agilmente os degraus, detendo-se em cada um deles como um cortesão noviço, inquieto pelo acolhimento que lhe faria o rei. Quando chegou ao alto da escadaria de caracol, ficou um momento no patamar, hesitando se usaria ou não a grotesca aldrava que ornamentava a porta da oficina onde devia trabalhar o pintor de Henrique IV, ao qual Maria de Médicis preferiu Rubens. O rapaz experimentava essa sensação profunda que deve ter feito vibrar o coração dos grandes artistas quando, em pleno zênite da mocidade e do amor pela arte, enfrentaram um homem de gênio ou alguma obra-prima. Existe em todos os sentimentos humanos uma flor primitiva, engendrada por um nobre entusiasmo que vai continuamente enfraquecendo até que a felicidade não seja mais do que uma lembrança e a glória uma mentira. Por entre essas frágeis emoções, nada se assemelha tanto ao amor como a juvenil paixão de um artista que inicia o delicioso suplício de seu destino de glória e de infortúnio, paixão cheia de audácia e de timidez, de crenças vagas e de desânimos positivos. Ao artista que, de poucos haveres, que, adolescente de gênio, não palpitou vivamente ao apresentar-se diante de um mestre, sempre faltará uma corda no coração, não sei que pincelada, que sentimento na obra, que indefinível expressão de poesia. Se alguns fanfarrões, cheios de si, crêem muito cedo no futuro, esses serão homens de espírito somente para os néscios. A ser assim, o jovem desconhecido parecia ter verdadeiro merecimento, se é que o talento deve medir-se por essa timidez inicial, por esse pudor indefinível que os que são destinados à glória sabem perder no exercício de sua arte, como as mulheres bonitas perdem o seu nos manejos da faceirice. O hábito do triunfo apequena a dúvida, e o pudor é talvez uma dúvida.
Deprimido pela miséria e surpreendido naquele momento por sua petulância, o pobre neófito não teria entrado em casa do pintor a quem devemos o admirável retrato de Henrique IV, sem um auxílio extraordinário que o acaso lhe proporcionou. Um ancião vinha subindo a escada. Pela singularidade do seu traje, pela magnificência de seu cabeção de renda, pela preponderante calma do seu andar, o rapaz adivinhou ser aquele personagem um protetor, ou amigo do pintor; recuou no patamar para dar-lhe lugar e examinou-o com curiosidade, na esperança de achar nele a boa índole de um artista ou o caráter serviçal das pessoas que amam a arte; mas naquele rosto divisou alguma coisa de diabólico, e, sobretudo, esse não sei que que tanto atrai os artistas. Imaginem uma fronte calva, abaulada, proeminente, projetando-se saliente sobre um nariz pequeno e chato, arrebitado na ponta como o de Rabelais ou o de Sócrates; uma boca risonha e enrugada, um queixo curto, orgulhosamente erguido, tapado por uma barba grisalha, aparada em ponta, olhos verde-mar embaciados na aparência pela idade, mas que, pelo contraste do branco nacarado em que a pupila flutuava, deviam por vezes despedir olhares magnéticos no paroxismo da cólera ou do entusiasmo. O rosto, aliás, estava singularmente emurchecido pelas fadigas da idade e, mais ainda, por esses pensamentos que corroem igualmente a alma e o corpo. Os olhos não tinham mais cílios, e mal se viam vestígios de sobrancelhas por sobre as arcadas salientes. Ponham essa cabeça num corpo franzino e débil, cerquem-na de uma renda de deslumbrante alvura e perfurada como uma colher para peixe, atirem sobre o gibão preto do ancião uma pesada corrente de ouro e terão uma imagem imperfeita desse personagem, ao qual a escassa luz da escada acrescentava ainda uma cor fantástica. Dir-se-ia uma tela de Rembrandt caminhando silenciosamente, e sem o quadro, na escura atmosfera de que o grande pintor se apropriou. O ancião dirigiu ao rapaz um olhar repassado de sagacidade, bateu três pancadas na porta e disse a um homem valetudinário, de cerca de quarenta anos, que veio abrir:
- Bom dia, mestre.
Porbus inclinou-se respeito- samente; deixou o rapaz entrar, por julgá-lo trazido pelo ancião, e preocupou-se tanto menos com ele, por ter o neófito permanecido sob o encantamento que devem experimentar os pintores de vocação ante o aspecto do primeiro ateliê que vêem e onde se lhes revelam alguns dos processos materiais da arte. Uma clarabóia existente no teto iluminava o ateliê de Porbus. Concentrada sobre uma tela colocada no cavalete e que não fora ainda tocada senão por três ou quatros traços brancos, a luz não alcançava as negras profundezas dos cantos daquela vasta peça; entretanto, alguns reflexos perdidos faziam brilhar naquela sombra pardacenta uma paleta prateada no ventre de uma couraça de retre suspensa na parede, listavam com um brusco sulco de luz a cornija esculpida e encerada de um antigo aparador coberto de louças curiosas ou pontilhavam de pingos brilhantes o tecido granuloso de alguns velhos reposteiros de brocado dourado, de grandes pregas desfeitas, atirados ali como modelos. Manequins de gesso, fragmentos e bustos de deusas antigas, amorosamente polidas pelos beijos dos séculos, enchiam as mesinhas e os consolos. Numerosos esboços, estudos a lápis, a três cores, sanguíneos ou feitos a pena, cobriam as paredes até o teto. Caixas de tintas, garrafas de óleo e de essência, escabelos caídos não deixavam senão um caminho estreito para chegar embaixo da auréola projetada pela clarabóia, cujos raios caíam em cheio no pálido semblante de Porbus e sobre o crânio de marfim do homem singular. A atenção do rapaz foi logo exclusivamente solicitada por um quadro que, naquele tempo de motins e de revoluções, já se tornara célebre, e que era visitado por alguns desses teimosos aos quais se deve a conservação do fogo sagrado durante os dias maus. 
Aquela bela página representava uma Maria Egipcíaca que se dispunha a pagar a passagem da barca. Essa obra-prima, destinada a Maria de Médicis, foi por ela vendida nos dias de sua miséria.
- Tua santa me agrada disse o ancião a Porbus - e eu te daria por ela dez escudos de ouro acima do preço que a rainha oferece; mas competir com ela... é o diabo!
- Acha-a bem?
- Hum! hum! fez o ancião - bem?... sim e não. Essa tua mulherzinha não está mal-arranjada, mas não tem vida. Vocês pensam ter feito tudo quando desenharam corretamente uma figura e puseram corretamente cada coisa em seu lugar segundo as leis da anatomia! Vocês cobrem esse esboço com tonalidades de carne de antemão preparadas na paleta, tendo o cuidado de manter um dos lados mais sombrio do que o outro, e, como olham de quando em quando uma mulher nua que se conserva de pé em cima de uma mesa, julgam ter copiado a natureza; imaginam que são pintores e que roubaram o segredo de Deus!... Prrr! Não basta para ser um grande poeta conhecer a fundo a sintaxe e não cometer erros de linguagem! Olha tua santa, Porbus! À primeira vista ela parece admirável; mas a um segundo exame vê-se que está colada no fundo da tela e que não seria possível dar uma volta em torno do seu corpo. É uma silhueta que só tem uma face, é uma aparência recortada, uma imagem incapaz de se virar, de mudar de posição. Não sinto ar entre esse braço e o fundo do quadro; faltam espaço e profundidade: entretanto, em perspectiva tudo está bem e a degradação aérea está exatamente observada; mas, apesar de tão louváveis esforços, eu não poderia crer que esse belo corpo esteja animado pelo morno sopro da vida. Parece-me que, se eu colocasse a mão naquele colo de carnes firmes e harmoniosas, eu o acharia frio como mármore. Não, meu amigo, o sangue não corre por baixo daquela pele de marfim, a vida não intumesce com seu orvalho purpúreo as veias e as fibrilas que se entrelaçam em redes sob a transparência de âmbar das têmporas e do peito. Este lugar palpita, mas aquele outro está imóvel, em cada pormenor a vida e a morte lutam: aqui é uma mulher, ali é uma estátua, mais além é um cadáver. Tua criação é incompleta. Não pudeste transmitir senão uma parte de tua alma à tua obra querida. O facho de Prometeu mais de uma vez se apagou nas tuas mãos e muitos lugares do teu quadro não foram tocados pela chama celeste.
- Mas por quê, meu caro mestre? - disse respeitosamente Porbus ao ancião, enquanto o rapaz dificilmente reprimia um forte desejo de sová-lo.
- Ah! aí está! - respondeu o velhinho. - Flutuaste indeciso entre os dois sistemas, entre o desenho e a cor, entre a fleuma minuciosa, a rigidez precisa dos velhos mestres alemães e o ardor deslumbrante, a feliz abundância dos pintores italianos. Quiseste imitar ao mesmo tempo Hans Holbein e Ticiano, Albrecht Dürer e Paolo Veronese. Evidentemente, era isso uma ambição magnífica! Mas que aconteceu? Não alcançaste nem a sedução severa da secura nem as decepcionantes magias do claro-escuro. Neste lugar, como um bronze em fusão que arrebenta seu molde fraco demais, a rica e loura cor do Ticiano fez romper-se o magro contorno de Albrecht Dürer, em que o tinhas moldado. Além, o desenho resistiu aos magníficos transbordamentos da paleta veneziana e os conteve. Tua figura não está nem perfeitamente desenhada nem perfeitamente pintada, e mostra em toda parte os vestígios dessa infeliz indecisão. Se não te sentias suficien- temente forte para fundir juntos ao fogo do teu gênio as duas maneiras rivais, devias ter optado francamente por uma ou outra, a fim de obter a unidade que simula uma das condições da vida. Tu não és verdadeiro senão nos centros, teus contornos são falsos, não se envolvem e nada prometem por detrás. Aqui há verdade - disse o ancião, mostrando o peito da santa. - E também aqui - continuou ele indicando o ponto em que, no quadro, terminava o ombro. - Mas ali - acrescentou, voltando ao centro do colo - tudo é falso. Não analisemos nada, que isso seria desesperar-te.
O ancião sentou-se numa banqueta, segurou a cabeça com as mãos e ficou calado.
Mestre - disse-lhe Porbus -, entretanto estudei bem o nu deste colo; mas, por infelicidade nossa, existem efeitos verdadeiros na natu- reza que na tela não são mais prováveis...
- A missão da arte não é copiar a natureza e sim exprimi-la! Não és um vil copista, e sim um poeta! - exclamou vivamente o ancião, inter- rompendo Porbus com um gesto despótico. - De outra forma, um escul- tor estaria quite com todos os seus trabalhos modelando uma mulher! Pois bem, experimenta modelar a mão de tua amante e a colocar diante de ti; depararás com um horrível cadáver, sem nenhuma parecença, e serás forçado a ir em busca do escopro do homem que, sem copiá-la exatamente, nela representará o movimento e a vida. Temos de apreender o espírito, a alma, a fisionomia das coisas e dos seres. Os efeitos! os efeitos! mas se eles são os acidentes da vida e não a vida! Uma mão, já que recorri a esse exemplo, uma mão não está unicamente presa ao corpo, ela exprime e continua um pensamento que é preciso apreender e reproduzir. Nem o pintor nem o poeta nem o escultor devem separar o efeito da causa, que invencivelmente estão um no outro. A verdadeira luta está aí! Muitos pintores triunfam instinti- vamente sem conhecer esse tema da arte. Vocês desenham uma mulher, mas não a vêem! Não é assim que se consegue forçar o arcano da natureza. As mãos de vocês reproduzem, sem que se dêem conta, o modelo que copiaram na oficina do mestre. Vocês não descem suficientemente na intimidade da forma, não a perseguem com suficiente amor e perseverança nos seus desvios e nas suas fugas. A beleza é uma coisa severa e difícil que não se deixa alcançar à vontade, é preciso esperar suas horas, espioná-la, acossá-la e enlaçá-la firmemente para obrigá-la render-se. A Forma é um Proteu muito mais inatingível e mais fértil em sinuosidades do que o Proteu da Fábula; não é senão depois de demorados combates que se pode constrangê-la a mostrar-se sob seu verdadeiro aspecto. Vocês contentam-se com a primeira aparência que ela lhes entrega, ou quando muito com a segunda, ou com a terceira; não é assim que procedem os lutadores vitoriosos! Esses pintores jamais vencidos não se deixam ludibriar por esses mais-ou-menos, perseveram até que a natureza se veja reduzida a mostrar-se inteiramente nua, e no seu verdadeiro espírito. Assim procedeu Rafael - disse o ancião, tirando seu boné de veludo preto para exprimir o respeito que lhe inspirava o rei da arte -, sua grande superioridade provém do sentido íntimo que, nele, parece querer despedaçar a forma. A forma, nas suas figuras, é o mesmo que entre nós, um intérprete para comunicar idéias, sensações, uma vasta poesia. Toda imagem é um mundo, um retrato cujo modelo surgiu numa visão sublime, colorido de luz, designado por uma voz interior, despido por um dedo celestial que mostrou, no passado de toda uma vida, as fontes da expressão. Vocês fazem nas suas mulheres belos vestidos de carne, belos cortinados de cabelos, mas onde o sangue que engendra a calma ou a paixão e que causa efeitos particulares? Tua santa é uma mulher morena, mas isto aqui, meu pobre Porbus, é de uma loura! As figuras de vocês são então pálidos fantasmas coloridos que vocês nos passeiam diante dos olhos, e chamam a isso pintura e arte! Pelo fato de terem feito alguma coisa que se assemelha mais a uma mulher do que a uma casa, vocês pensam ter alcançado o alvo, e, muito ufanos por não serem mais obrigados a escrever ao lado de suas figuras, currus venustus ou pulcher homo, como os primeiros pintores, vocês julgam ser artistas maravilhosos! Ah! ah! ainda não alcançaram o alvo, meus denodados companheiros; terão ainda de gastar muitos lápis, borrar muitas telas antes de tal conseguir! Não há dúvida de que uma mulher traz a cabeça desse modo, ela segura a saia assim, seus olhos se enlanguescem e se fundem nesse ar de doçura resignada, a sombra palpitante dos cílios flutua desse modo sobre as faces! É isso e não é isso. Que falta, pois? um nada, mas esse nada é tudo. Vocês dão a aparência da vida mas não exprimem seu excesso que transborda, esse não sei que que é a alma, talvez, e que flutua nebulosamente sobre o invólucro; enfim, essa flor de vida que Ticiano e Rafael surpreenderam. Partindo-se do ponto extremo a que vocês chegaram, far-se-ia, talvez, excelente pintura;
mas vocês se cansam muito depressa. O vulgo admira, mas o verdadeiro conhecedor sorri. Ó Mabuse, ó meu mestre - acrescentou aquele singular personagem -, és um ladrão, levaste a vida contigo! Feitas essas restrições - prosseguiu -, esta tela vale mais do que as pinturas desse mariola de Rubens, com as suas montanhas de carnes flamengas, polvilhadas de vermelhão, com suas bátegas de cabeleiras castanhas e sua orgia de cores. Pelo menos você tem aí cor, sentimento e desenho, as três partes essenciais da arte.
- Mas essa santa é sublime, velhote! - exclamou o rapaz com voz forte, ao sair de demorado devaneio. - Essas duas figuras, a da santa e a do barqueiro, têm uma finura de intenção que os pintores italianos ignoravam; não conheço um único que tivesse inventado a indecisão do barqueiro.
- Esse maroto é seu? - perguntou Porbus ao ancião.
- Ai de mim! mestre, perdoe o meu atrevimento - respondeu o neófito, corando. - Sou desconhecido, um pintamonos instintivo, e chegado faz pouco a esta cidade, fonte de toda ciência.
- Mãos à obra! - retrucou-lhe Porbus apresentando-lhe um lápis vermelho e uma folha de papel.
O desconhecido copiou celeremente a Maria em poucos traços.
- Oh! oh! - exclamou o ancião. - Como se chama?
O rapaz escreveu por baixo: Nicolas Poussin.
- Eis aqui algo que não está mal para um principiante - afirmou a singular personagem que tão aloucadarnente discorria. - Vejo que se pode falar em pintura diante de ti. Não te censuro por teres admirado a santa de Porbus. Para todos é uma obra-prima, e somente os iniciados nos mais profundos arcanos da arte podem descobrir no que ela peca. Uma vez, porém, que és digno da lição e capaz de compreender, vou fazer-te ver o pouco que seria preciso para completar a obra. Abre bem os olhos e presta toda a atenção, pois semelhante ocasião de te instruíres não tornará jamais, talvez, a se apresentar. Tua paleta, Porbus!
Porbus foi buscar a paleta e os pincéis. O velhinho arregaçou as mangas com um gesto de rudeza convulsa, passou o polegar na paleta matizada e cheia das tintas que Porbus lhe oferecia; arrancou-lhe das mãos, mais do que o recebeu, um punhado de pincéis de todos os tamanhos, e sua barba, aparada em ponta, moveu-se subitamente por esforços ameaçadores que exprimiam o prurido de uma apaixonada fantasia. Ao mesmo tempo que enchia o pincel de tinta, resmungava entre dentes:
"Estas cores só prestam para ser atiradas pela janela, junto com o que as misturou: são de uma crueza e de uma falsidade revoltantes! Como se poderá pintar com isso?"
Molhava depois com febril vivacidade a ponta do pincel nas várias cores, das quais percorria por vezes toda a escala mais rapidamente do que um organista de catedral percorre a extensão de seu teclado no O filii da Páscoa.
Porbus e Poussin permaneciam imóveis, cada um deles a um lado da tela, mergulhados na mais veemente contemplação.
- Vês, rapaz - ia dizendo o velho, sem se voltar -, vês como por meio de três ou quatro pinceladas e de uns toques azulados se podia fazer o ar circular à roda da cabeça desta pobre santa, que devia estar sufocada e sentir-se presa nessa atmosfera densa! Olha como esta fazenda revoluteia agora e como se compreende que a brisa a soergue! Antes tinha o aspecto de uma tela engomada e presa com alfinetes. Estás notando como o brilho acetinado que acabo de depor no peito reproduz bem a fofa flexibilidade de uma pele de moça, e como o tom misturado de pardo-avermelhado e de ocre calcinado aquece a grísea frieza desta grande sombra na qual o sangue se coagulava em vez de circular? Rapaz, rapaz, o que aqui te estou mostrando nenhum mestre poderia ensinar-te. Somente Mabuse possuía o segredo de dar vida às figuras. Mabuse teve somente um discípulo, e esse sou eu. Eu não tive nenhum, e estou velho!
Tens suficiente inteligência para adivinhar o resto, por isto que te estou deixando entrever.
Ao mesmo tempo que falava, o estranho ancião tocava em todos os pontos do quadro: aqui duas pinceladas, ali uma única, mas sempre tão a propósito que se diria uma nova pintura, mas uma pintura banhada de luz. Trabalhava com um ardor tão apaixonado que o suor gotejou na sua fronte calva; ia tão rapidamente com pequenos movimentos tão impaci- entes, tão entrecortados que, para o jovem Poussin, parecia haver no corpo daquela singular personagem um demônio que atuava por suas mãos, tomando-as fantasticamente contra a vontade do homem. O brilho sobrenatural de seus olhos, as convulsões que pareciam o efeito de uma resistência davam àquela idéia um simulacro de verdade que devia atuar sobre uma imaginação moça. O ancião continuava dizendo:
- Paf! paf! paf! eis aqui como isto se lambuza, rapaz! Venham, minhas pinceladinhas, façam-me crestar este tom glacial! Vamos! Pon! pon! pon! - murmurava, dando calor às partes onde se assinalara uma falta de vida, fazendo desaparecer por meio de algumas placas de tinta as diferenças de temperamento, e restabelecendo a uniformidade de tom exigida por uma ardente egípcia.
- Vês, meu filho, o que vale é a última pincelada. Porbus deu cem; eu dou uma somente. Ninguém nos agradece o que está embaixo. Fique sabendo isso bem!
Finalmente, aquele demônio se deteve, e, virando-se para o Porbus e Poussin, mudos de admiração, disse-lhes:
- Isto não vale ainda a minhaBelle Noiseuse; entretanto, podia-se assinar o nome ao pé de semelhante obra. Sim, eu a assinaria - acrescentou, erguendo-se para pegar um espelho, no qual olhou-a. - Agora, vamos almoçar - disse ele. - Venham os dois à minha casa. Tenho presunto defumado e bom vinho!... Eh! eh! apesar dos tempos desgraçados, falaremos de pintura! Somos de força... Aqui está um homenzinho - acrescentou, dando uma palmada no ombro de Nicolas Poussin - que tem facilidades.
Ao ver então o casaco ordinário do normando, tirou do cinturão uma bolsa de couro, meteu os dedos nela, de lá trouxe duas moedas de ouro e, mostrando-lhas:
- Compro o teu desenho disse ele.
- Aceita - aconselhou Porbus a Poussin, ao vê-lo estremecer e corar de vergonha, porquanto o jovem adepto tinha o orgulho do pobre. - Aceita de uma vez, pois que na sua sacola ele tem o resgate de dois reis.
Os três desceram a escada da oficina e caminharam charlando a respeito de arte, até chegarem a uma bela casa de madeira situada perto da ponte de São Miguel, e cujos ornamentos, a aldraba, os caixilhos das janelas, os arabescos, maravilharam Poussin. O aspirante a pintor viu-se repentinamente numa sala baixa, diante de um bom fogo, junto a uma mesa servida de manjares apetitosos, e, por uma felicidade inaudita, na companhia de dois grandes artistas cheios de bonomia.
- Jovem - disse-lhe Porbus, ao vê-lo pasmado em frente a um quadro -, não olhe muito essa tela, pois ficaria desesperado.
Era o Adam, que Mabuse fez para sair da prisão na qual seus credores o retiveram durante muito tempo. Aquela figura apresentava, efetivamente, um tal poder de realidade que Nicolas Poussin começou, desde aquele momento, a compreender o verdadeiro sentido das confusas palavras do ancião. Este contemplava o quadro com ar satisfeito, mas sem entusiasmo, parecendo dizer: ''Fiz coisa melhor!''
- Há vida aí - comentou -; meu pobre mestre sobrepujou-se; falta, porém, ainda um pouco de verdade no fundo da tela. O homem está bem vivo, vai levantar-se e dirigir-se para nós. Mas o ar, o céu, o vento que respiramos, vemos e sentimos não estão aí. Ademais, não há aí mais do que um homem! Ora, o único homem saído diretamente das mãos de Deus devia ter algo de divino, que falta. O próprio Mabuse, quando não estava ébrio, dizia isso cheio de despeito.
Poussin olhava alternativa- mente para o ancião e para Porbus com uma curiosidade inquieta. Aproximou-se deste como para perguntar-lhe o nome do anfitrião; o pintor, porém, pôs um dedo nos lábios com ar de mistério, e o rapaz, vivamente interessado, calou-se, esperando que cedo ou tarde alguma palavra lhe permitiria adivinhar o nome do seu hospedeiro, cuja riqueza e talentos eram suficientemente atestados pelo respeito que Porbus lhe testemunhava e pelas maravilhas acumuladas naquela sala.
Poussin, ao ver no sombrio forro de madeira de carvalho um magnífico retrato de mulher, exclamou:
- Que belo Giorgione!
- Não - replicou o ancião -, está vendo uma das minhas primeiras lambuzadas.
- Demônios! estou então em casa do deus da pintura! - disse ingenuamente Poussin.
O ancião sorriu como um homem habituado de há muito a esse elogio.
- Mestre Frenhofer! - disse Porbus - não quererá mandar buscar um pouco do seu bom vinho do Reno para mim?
- Duas pipas! - respondeu o ancião. - Uma para pagar o prazer que tive esta manhã ao ver tua linda pecadora e a outra como um presente de amizade.
- Ah! se eu não estivesse sempre doente - respondeu Porbus - e se quisesse deixar-me ver sua Belle Noiseuse, eu poderia fazer alguma pintura elevada, vasta e profunda, na qual as figuras seriam de tamanho natural.
- Mostrar minha obra! - disse o ancião, emocionado. - Não! não! preciso aperfeiçoá-la ainda. Ontem, ao entardecer, pensei tê-la terminado. Os olhos dela pareciam-me úmidos, sua carne estava agitada. As tranças dos seus cabelos moviam-se. Ela respirava! Embora eu tenha achado o meio de realizar numa tela chata o relevo e as rotundidades da natureza, hoje de manhã, à luz, reconheci meu erro. Ah! para chegar a esse resultado glorioso, estudei a fundo os grandes mestres do colorido, analisei e ergui camada por camada os quadros do Ticiano, esse rei da luz; como esse pintor soberano, esbocei minha figura num tom claro com uma pasta flexível e abundante, porque a sombra nada mais é do que um acidente, guarda isso, garoto! Depois voltei à minha obra e, por meio de meias-tintas e de cores claras e translúcidas cuja transparência eu ia diminuindo gradualmente, reproduzi as mais vigorosas sombras e até os mais rebuscados negros; porquanto as sombras dos pintores comuns são de outra natureza que os seus tons claros; é madeira, é bronze, e tudo que quiserem, menos carne na sombra. Sente-se que, se as figuras deles mudassem de posição, os lugares sombreados não se clareariam e não se tornariam luminosos. Evitei esse erro, no qual muitos dos mais ilustres caíram, e em mim a alvura se realça sob a opacidade da mais firme sombra. Não fiz como uma porção de ignorantes que pensam desenhar corretamente porque fazem um traço cuidadosamente nítido; não, eu não assinalei secamente as bordas exteriores da minha figura e não fiz ressaltar até a menor minúcia anatômica, porque o corpo humano não acaba por linhas. Nisso, os escultores podem aproximar-se mais da verdade do que nós. A natureza comporta uma série de curvas que se envolvem umas nas outras. Rigorosamente falando, o desenho não existe! Não se ria, rapaz! Por mais estranha que lhe pareça essa afirmação, algum dia você lhe compreenderá as razões. A linha é o meio pelo qual o homem se dá conta do efeito da luz sobre os objetos; mas na natureza, onde tudo é cheio, não há linhas: é modelando que se desenha, isto é, que se destacam as coisas do meio em que elas se acham: é somente a distribuição da luz que dá aparência ao corpo! Por isso não fixei os traços, espalhei sobre os contornos uma nuvem de meias-tintas louras e quentes que faz com que não se possa com precisão colocar o dedo no lugar em que eles se confundem com o fundo. De perto, esse trabalho parece nebuloso e como que falto de precisão; mas a dois passos tudo se afirma, se detém, se destaca; o corpo gira, as formas tornam-se salientes, sente-se o ar circular em torno. Entretanto, ainda não estou satisfeito, tenho dúvidas. Seria preciso talvez não desenhar um único traço, talvez fosse preferível começar uma figura pelo meio, dedicando-se primeiro às saliências mais iluminadas, para passar depois às porções mais sombrias. Não é assim que faz o sol, esse divino pintor do universo? Ó natureza! natureza! quem jamais te surpreendeu nas tuas fugas! Olhem, o excesso de ciência, do mesmo modo que a ignorância, leva a uma negação. Não tenho confiança na minha obra!
O ancião fez uma pausa, depois prosseguiu:
- Faz dez anos, meu rapaz, que trabalho; mas o que são dez minguados anos quando se trata de tirar com a natureza? Ignoramos o tempo que o senhor Pigmalião empregou para fazer a única estatua que caminhou!
O ancião mergulhou em profunda meditação e permaneceu de olhos fixos, brincando maquinalmente com uma faca.
- Ei-lo em conversação com o seu espírito! - disse Porbus em voz baixa.
Ao ouvir tais palavras, Nicolas Poussin sentiu-se sob a influência de uma inexplicável curiosidade de artista. Aquele ancião de olhos brancos, atento e estúpido, que se tornara para ele mais do que um homem, afigurou-se-lhe um gênio fantástico que vivesse numa esfera desconhecida. Ele despertava-lhe mil idéias confusas na alma. O fenômeno moral dessa espécie de fascinação não pode ser definido, tanto quanto não o pode ser a emoção provocada por uma canção que lembre a pátria no coração de um exilado. O desprezo que aquele homem velho afetava manifestar pelas mais belas tentativas da arte, sua riqueza, suas maneiras, a deferência de Porbus por ele, aquela obra por tanto tempo mantida em segredo, obra de paciência, sem dúvida uma obra de gênio, se se devia julgar pela cabeça da Virgem que o jovem Poussin tão francamente admirara e que, bela ainda, mesmo ante o Adam de Mabuse, atestava a imperial feitura de um dos príncipes da arte: tudo naquele ancião ultrapassava os limites da natureza humana. O que a rica imaginação de Nicolas Poussin pôde apreender de claro e de perceptível ao ver aquela criatura sobrenatural foi uma imagem completa da natureza artística, dessa aloucada natureza à qual são confiados tantos poderes e que com demasiada freqüência deles abusa, arrastando a fria razão, os burgueses e mesmo alguns amadores através de mil estradas pedregosas onde, para eles, nada há; ao passo que, brincalhona nas suas fantasias, essa rapariga de asas brancas ali descobre epopéias, castelos, obras de arte. Natureza zombeteira e boa, fecunda e pobre! Assim, pois, para o entusiasta Poussin, aquele ancião tornara-se, por uma súbita transfiguração, a própria Arte, a arte com os seus segredos, seus ardores e seus devaneios.
- Sim, meu caro Porbus - volveu Frenhofer -, faltou-me até agora encontrar uma mulher irrepreensível, um corpo cujos contor-nos sejam de uma beleza perfeita e cuja carnação... Mas - continuou ele, após uma pausa - onde viverá essa Vênus dos antigos, impossível de achar, tantas vezes procurada e da qual encontramos apenas algumas belezas esparsas? Oh! para ver um momento, uma única vez, a natureza divina, completa, o ideal enfim, eu daria toda a minha fortuna... Mas irei procurar-te nos teus limbos, beleza celestial! Como Orfeu, descerei ao inferno da arte para de lá trazer a vida.
- Podemos ir embora daqui - disse Porbus a Poussin -; ele não nos ouve mais, não nos vê mais!
- Vamos ao seu ateliê - propôs o rapaz, maravilhado.
- Oh! o velho retre soube defender-lhe a enxada. Seus tesouros estão por demais bem guardados para que possamos chegar até eles. Não esperei tua opinião e tua fantasia para tentar o assalto do mistério.
- Há, então, um mistério?
- Sim - respondeu Porbus. - O velho Frenhofer foi o único discípulo que Mabuse quis ter. Tendo-se tornado amigo dele, seu salvador, seu pai, Frenhofer sacrificou a maior parte de seus tesouros para satisfazer as paixões de Mabuse; em troca, este legou-lhe o segredo do relevo, o poder de dar às figuras essa vida extraordinária, essa flor de natureza, nosso eterno desespero, mas da qual ele possuía tão bem a feitura que um dia, tendo vendido e bebido o damasco de flores com o qual devia vestir-se por ocasião da entrada de Carlos V, ele acompanhou seu senhor com um vestuário de papel pintado de damasco. O brilho particular da fazenda do traje de Mabuse surpreendeu o imperador, o qual, querendo dirigir um cumprimento ao protetor do velho ébrio, descobriu a intrujice. Frenhofer é um homem apaixonado pela nossa arte, que vê mais acima e mais longe do que os outros pintores. Ele meditou profundamente sobre as cores, sobre a verdade absoluta da linha; mas, à força de pesquisas, chegou mesmo a duvidar do objeto delas. Nos seus momentos de desespero, ele acha que o desenho não existe e que com linhas não se podem reproduzir senão figuras geométricas; o que ultrapassa a verdade, porquanto com a linha e o preto, que não é uma cor, pode-se fazer uma figura; o que prova que a nossa arte é, como a natureza, composta de uma infinidade de elementos: o desenho dá o esqueleto, a cor é a vida, mas a vida sem o esqueleto é uma coisa mais incompleta do que o esqueleto sem a vida. Enfim, há alguma coisa mais verdadeira do que tudo isto, e é que a prática e a observação são tudo num pintor, e que, se o raciocínio e a poesia se malquistam com os pincéis, chega-se à dúvida como o velhote, que é tão louco quanto pintor. Pintor sublime, ele teve a desgraça de nascer rico, o que lhe permitiu divagar; não o imite! Trabalhe! Os pintores só devem meditar com o pincel na mão.
- Nós penetraremos lá! - exclamou Poussin, que não ouvia mais Porbus e de mais nada duvidava.
Porbus sorriu ante o entusiasmo do jovem desconhecido e separou-se dele convidando-o a que o fosse visitar.
Nicolas Poussin voltou a passos lentos para a rue de la Harpe e ultrapassou sem se dar conta a modesta hospedaria onde se alojava. Subindo com inquieta celeridade sua escada miserável, chegou a um quarto no alto, situado sob um telhado com trapeira, simples o ligeira cobertura das casas da velha Paris. Junto à única e sombria janela daquele quarto estava uma moça, a qual, ao ruído da porta, ergueu-se subitamente por um impulso de amor; reconhecera o pintor pelo modo com que ele movera o trinco.
- Que tens? - perguntou-lhe.
- Tenho... tenho... - exclamou ele sufocado de gozo - que me senti pintor! Até agora tinha duvidado de mim, mas esta manhã tive confiança em mim! Posso ser um grande homem! Crê, Gillette, seremos ricos, felizes! Há ouro nesses pincéis...
Mas calou-se de repente. Seu rosto grave e vigoroso perdeu sua expressão de alegria quando comparou a imensidão das suas esperanças com a mediocridade de seus recursos. As paredes estavam cobertas de simples papéis cheios de esboços a lápis. Não possuía senão quatro telas próprias. As tintas estavam então muito caras e o pobre rapaz via sua paleta pouco mais ou menos vazia. No seio dessa miséria, ele possuía e sentia riquezas incríveis no coração e a superabundância de um gênio devorador. Trazido a Paris por um de seus amigos, fidalgo, ou talvez pelo seu próprio talento, ele ali veio encontrar subitamente uma amante, uma dessas almas nobres e generosas que vêm sofrer junto a um grande homem, partilham seus trabalhos e se esforçam por compreender-lhes os caprichos; forte para a miséria e o amor, como outros são intrépidos para usar o luxo e fazer ostentação de sua insensibilidade. O sorriso que errava nos lábios de Gillette dourava aquele sótão e rivalizava com o brilho do céu. O sol nem sempre brilhava, ao passo que ela sempre estava ali, interiorizada na sua paixão, presa à sua felicidade, ao seu sofrimento, consolando o gênio que transbordava no amor antes de se apoderar da arte.
- Ouve, Gillette, vem.
A obediente e alegre moça saltou sobre os joelhos do pintor. Era ela toda graça, toda beleza, linda como uma primavera, ornada com todas as riquezas femininas e iluminando-as com o fogo de uma bela alma.
- Oh! Deus! - exclamou ele - jamais me atreverei a dizer-lhe...
- Um segredo? - perguntou ela. - Quero sabê-lo.
Poussin permaneceu pensativo.
- Fala de uma vez.
- Gillette... pobre coração amado!
- Oh! queres alguma coisa de mim?
- Sim.
- Se queres que eu pose ainda para ti, como no outro dia - replicou ela com um arzinho amuado -, jamais consentirei em tal, porque nesses momentos teus olhos não me dizem mais nada. Não pensas mais em mim e contudo me olhas.
- Preferirias ver-me copiando uma outra mulher?
- Talvez - disse ela -, se fosse bem feia.
- Pois bem - replicou Poussin, em tom sério -, se, pela minha glória futura, se, para me tornar um grande pintor, fosse preciso ires posar para outro?
- Queres pôr-me à prova - respondeu ela. - Sabes perfeitamente que eu não iria.
Poussin inclinou a cabeça sobre o peito, como um homem que sucumbe a uma alegria ou a uma dor forte demais para a sua alma.
- Ouve - disse ela puxando Poussin pela manga de seu gibão surrado .-, eu te disse, Nick, que daria minha vida por ti; mas nunca te prometi renunciar ao meu amor enquanto vivesse.
- Renunciar? - exclamou o jovem artista.
- Se eu me mostrasse assim a um outro, tu não me amarias mais, e eu mesma me acharia indigna de ti. Obedecer aos teus caprichos não é uma coisa natural e simples? Embora não queira, sinto-me feliz e mesmo orgulhosa por fazer tua vontade querida. Mas para um outro, Deus me livre!
- Perdoa, minha Gillette - disse o pintor ajoelhando-se aos pés dela. - Prefiro ser amado a ser glorioso. Para mim, és mais bela do que a fortuna e as honrarias. Vai, atira fora meus pincéis, queima esses esboços. Enga- nei-me. Minha vocação é amar-te. Não sou um pintor, sou um amante. Mor- ram a arte e todos os seus segredos!
Ela admirava-o, feliz, seduzida. Ela reinava, sentia instintivamente que as artes eram esquecidas por ela e atiradas a seus pés como um grão de incenso.
- Entretanto, trata-se apenas de um ancião - insistiu Poussin. - Ele não poderá ver em ti senão a mulher. Tu és tão perfeita!
- É preciso amar muito - exclamou ela, pronta a sacrificar seus escrúpulos de amor a fim de recompensar seu amante por todos os sacrifícios que ele lhe fazia. - Mas - acrescentou - isso seria perder-me. Ah! perder-me por ti... Sim, seria uma coisa belíssima! Mas tu me esquecerás. Oh! que mau pensamento esse que tiveste!
- Tive-o e te amo - disse ele com uma espécie de contrição. - Mas então serei um infame?
- Consultemos o velho Hardouin - propôs ela.
- Oh! não; fique isso em segredo entre nós dois.
- Pois bem, irei; mas que não estejas presente - disse ela. - Fica na porta, armado com o teu punhal; se grito, entra e mata o pintor.
Não vendo mais do que sua arte, Poussin estreitou Gillette em seus braços.
''Ele não me ama mais!'', pensou Gillette, quando ficou só.
Já estava arrependida da sua resolução. Mas logo foi presa de um pavor mais cruel do que seu arrepen- dimento; esforçou-se em repelir um pensamento horrível que se erguia em seu coração. Julgava já estar amando menos o pintor por suspeitar ser ele menos estimável do que antes.



II

CATARINA LESCAULT

Três meses depois do encontro de Poussin e Porbus, este foi visitar mestre Frenhofer. O ancião estava então sujeito a um desses desânimos profundos e espontâneos cuja causa, se devemos dar créditos aos matemáticos da medicina, reside numa má digestão, no vento, no calor, ou em alguma inchação dos hipocôndrios; e, segundo os espiritualistas, na imperfeição da nossa natureza moral. O velhote pura e simplesmente se cansara em dar a última demão no seu misterioso quadro. Estava preguiçosamente sentado numa vasta poltrona de carvalho esculpido, forrada de couro preto; e, sem sair de sua atitude melancólica, dirigiu a Porbus o olhar de um homem que se instalara no seu tédio.
- E então, mestre - perguntou-lhe Porbus -, o ultramar que foi buscar em Bruges não era bom? Será que não soube misturar nosso novo branco? Seu óleo era ruim ou os pincéis eram teimosos?
- Ai de mim! - exclamou o ancião - durante um momento acreditei que minha obra estivesse concluída; mas com certeza me enganei nalguns detalhes e não sossegarei enquanto não dissipar minhas dúvidas. Estou decidido a viajar e vou à Turquia, à Grécia, à Ásia para procurar por lá um modelo e comparar meu quadro com alguns nus... É possível que eu tenha lá em cima - continuou, esboçando um sorriso de satisfação - a própria natureza. Por vezes, quase tenho medo de que um sopro desperte aquela mulher e que ela desapareça.
Depois, ergueu-se de repente, como para partir.
- Oh! oh! - respondeu Porbus - chego a tempo para poupar-lhe as despesas e as fadigas da viagem.
- Como assim? - perguntou Frenhofer, admirado.
- O jovem Poussin é amado por uma mulher cuja incomparável beleza não tem a menor imperfeição. Mas, meu caro mestre, se ele consente em emprestar-lha, será preciso pelo menos que nos deixe ver sua tela.
O ancião permaneceu de pé, imóvel, num estado de perfeita estupidez.
- Como! - exclamou ele, por fim, dolorosamente - mostrar minha criatura, minha esposa? rasgar o véu sob o qual castamente encobri minha felicidade? Mas isso seria uma horrível prostituição! Faz dez anos que vivo com essa mulher, ela é minha, só minha, ela me ama. Não me sorriu cada pincelada que lhe dei? Ela tem uma alma, a alma com que a dotei. Ela coraria se outros olhos que não os meus a fixassem. Mostrá-la! mas qual é o marido, o amante suficientemente vil para levar sua mulher à desonra? Quando fazes ora quadro para a Corte, não pões nele toda a tua alma, não vendes aos cortesãos mais do que manequins coloridos. Minha pintura não é uma pintura, é um sentimento, uma paixão! Nascida na minha oficina, ela aí deve permanecer virgem e não pode sair senão vestida. A poesia e as mulheres só se entregam nuas aos seus amantes! Possuímos nós o modelo de Rafael, a Angélica de Ariosto, a Beatriz do Dante? Não! não lhes vemos senão as formas. Pois bem, a obra que tenho lá em cima trancada a ferrolho é uma exceção na nossa arte. Não é uma tela, é uma mulher! uma mulher com a qual choro, rio, converso, penso. Queres que repentinamente eu abandone uma felicidade de dez anos como se atira uma capa; que repentinamente eu deixe de ser pai, amante e deus? Essa mulher não e uma criatura, é uma criação. Que venha o teu rapaz, eu lhe darei meus tesouros, quadros de Correggio, de Michelangelo, de Ticiano, beijarei as pegadas de seus passos na poeira; mas fazer dele meu rival? opróbrio sobre mim! Ah! ah! sou mais amante ainda do que pintor. Sim, terei forças para queimar a minha Belle Noiseuse ao dar o último suspiro; mas fazê-la suportar o olhar de um homem, de um rapaz, de um pintor? não, não! Mataria no dia seguinte aquele que a tivesse poluído com um olhar! Eu te mataria agora mesmo, a ti, que és meu amigo, se não a saudasses de joelhos! Queres agora que eu submeta meu ídolo às frias miradas e às críticas estúpidas dos imbecis? Ah! o amor é um mistério que só tem vida no fundo dos corações, e tudo está perdido quando um homem diz, mesmo ao seu amigo: "Aí está a mulher que amo!"
O ancião parecia ter remoçado; seus olhos tinham brilho e tinham vida; suas faces pálidas estavam matizadas de um vermelho vivo e suas mãos tremiam. Porbus, espantado com a violência apaixonada com que aquelas palavras foram proferidas, não sabia o que responder a um sentimento tão novo como profundo. Frenhofer estava no uso da razão ou louco? Estaria ele subjugado por uma fantasia de artista, ou as idéias que ele exprimira procederiam desse singular fanatismo que se produz em nós pela criação laboriosa de uma grande obra? Poder-se-ia esperar transigir um dia com aquela paixão estranha?
Empolgado por todos esses pensamentos, Porbus disse ao ancião:
- Mas não é uma mulher por outra mulher? Não entrega Poussin sua amante aos olhares do senhor?
- Que amante? - respondeu Frenhofer. - Cedo ou tarde ela o trairá. A minha me será sempre fiel!
- Pois bem - disse Porbus -, não falemos mais nisso. Mas, antes do senhor achar, mesmo na Ásia, uma mulher tão bela, tão perfeita como esta de que lhe falo, morrerá talvez sem ter concluído seu quadro.
- Oh! ele está acabado - disse Frenhofer. - Quem o visse, julgaria estar vendo uma mulher deitada num leito de veludo, velada por cortinas. Junto a ela uma tripeça de ouro exala perfumes. Ficarias tentado a agarrar as borlas dos cordões que retêm as cortinas, e te pareceria ver o seio de Catarina Lescault, uma bela cortesã chamada Belle Noiseuse, mover-se com a respiração. Entretanto, eu quisera ter certeza...
- Vá pois para a Ásia - respondeu Porbus, ao perceber uma certa hesitação no olhar de Frenhofer.
E Porbus deu alguns passos em direção à porta da sala.
Nesse momento, Gillette e Nicolas Poussin tinham chegado junto à residência de Frenhofer. Quando a moça estava a ponto de entrar, soltou o braço do pintor e recuou como se a tivesse invadido algum súbito pressentimento.
- Mas, afinal, que venho eu fazer aqui? - perguntou ao amante com um som de voz profundo e olhando-o fixamente.
- Gillette, deixei-te senhora de tua vontade e quero obedecer-te em tudo. Tu és minha consciência e minha glória. Volta para casa; eu serei mais feliz, talvez, do que se tu...
- Pertenço-me, acaso, quando me falas assim? Oh! não, não sou senão uma criança... Vamos acrescentou, parecendo fazer um esforço violento -, se nosso amor morrer e se puser no meu coração um infindável arrependimento, não será tua celebridade o preço da minha obediência aos teus desejos? Entremos, será ainda viver o estar sempre como uma recordação na tua paleta.
Ao abrirem a porta da casa, os dois amantes se encontraram com Porbus, o qual, surpreendido pela beleza de Gillette, cujos olhos estavam naquele momento rasos de lágrimas, segurou-a toda trêmula e, levando-a ante o ancião, disse-lhe:
- Veja, não vale ela todas as obras-primas do mundo?
Frenhofer estremeceu. Gillette ali estava, na atitude ingênua e simples de uma jovem georgiana inocente e medrosa, raptada por bandidos e apresentada a algum mercador de escravos. Um pudico rubor corava seu rosto; ela baixava os olhos; as mãos pendiam aos lados, as forças pareciam abandoná-la, e lágrimas protestavam contra a violência feita ao seu pudor. Nesse momento, Poussin, desesperado por ter tirado do sótão aquele belo tesouro, amaldiçoou-se a si próprio. Tornou-se mais amante do que artista, e mil escrúpulos torturaram-lhe o coração quando viu os olhos rejuvenescidos do ancião, o qual, por um hábito de pintor, despiu, por assim dizer, aquela moça, adivinhando-lhe as formas mais secretas. Retornou então ao feroz ciúme do verdadeiro amor.
- Partamos, Gillette! - bradou.
Ante aquele rasgo, a amante, alegre, ergueu os olhos para ele, viu-o, e correu para seus braços.
- Ah! então tu me amas! - respondeu, desatando a chorar.
Depois de ter tido a energia de fazer calar seu sofrimento, ela não tinha forças para ocultar sua felicidade.
- Oh! deixe-ma por um momento - disse o velho pintor - e poderás compará-la com a minha Catarina... Sim, consinto.
No grito de Frenhofer ainda havia amor. Parecia ter faceirice para com seu simulacro de mulher e gozar de antemão o triunfo que a beleza de sua criação ia conseguir sobre a de uma verdadeira moça.
- Não o deixe desdizer-se - exclamou Porbus, batendo no ombro de Poussin. - Os frutos do amor passam depressa, os da arte são imortais.
- Para ele - respondeu Gillette, olhando Poussin e Porbus atentamente - eu não serei então mais do que uma mulher?
Ergueu a cabeça com altivez; mas, quando, depois de dirigir um olhar cintilante a Frenhofer, ela viu seu amante entretido a contemplar outra vez o retrato que anteriormente ele tomara por um Giorgione:
- Ah! - disse ela - subamos! Ele nunca me olhou assim.
- Ancião - disse Poussin, arrancando à sua meditação pela voz de Gillette -, olha esta espada, eu a mergulharei no teu coração à primeira palavra de queixa que proferir esta moça, atearei fogo a tua casa, e ninguém sairá dela. Compreendes?
Nicolas Poussin estava sombrio e seu falar foi terrível. Essa atitude e sobretudo o gesto do jovem pintor consolaram Gillette, que quase o perdoou por sacrificá-la à pintura e ao seu glorioso futuro. Porbus e Poussin ficaram na porta do ateliê, olhando em silêncio um para o outro. Se, a princípio, o pintor de Maria Egipcíaca se permitiu algumas exclamações: "Ah! ela se está despindo, ele manda-a colocar-se em boa luz! Compara-a!", pronto calou-se ante o aspecto de Poussin, cujo semblante estava profundamente triste; e, conquanto os velhos pintores não tenham mais escrúpulos desses, tão mesquinhos diante da arte, ele admirou-os, de tal forma eram ingênuos e bonitos. O rapaz estava com a mão no punho da espada e com o ouvido quase colado à porta. Ambos, na sombra e de pé, assemelhavam-se assim a dois conspiradores à espera da hora de apunhalar um tirano.
- Entrem, entrem! - disse o ancião, radiante de felicidade. Minha obra está perfeita, e agora posso mostrá-la com orgulho. Jamais pintor, pincéis, tintas, tela e luz farão uma rival a Catarina Lescault, a bela cortesã!
Possuídos de viva curiosidade, Porbus e Poussin correram para o centro de uma vasta oficina coberta de pó, onde tudo estava em desordem, onde viram aqui e ali quadros pendurados nas paredes. Detiveram-se primeiro diante de uma figura de mulher de tamanho natural, seminua, que os encheu de admiração.
- Oh! não se ocupem com isso - disse Frenhofer -, é uma tela que borrei para estudar uma pose; esse quadro não vale nada. Aí estão meus erros - continuou, mostrando-lhes encantadoras composições penduradas às paredes, à roda deles.
Ante essas palavras, Porbus e Poussin, estupefatos com aquele desdém por tais obras, procuraram o retrato anunciado, sem conseguir vê-lo.
- Pois bem, aí está ele! - disse-lhes o ancião, cujos cabelos estavam em desordem, cujo rosto estava injetado por uma exaltação sobrenatural, cujos olhos cintilavam, e que ofegava como um rapaz ébrio de amor. - Ah! ah! - exclamou - não esperavam tanta perfeição! Estão diante de uma mulher e procuram um quadro. Há tanta profundidade nessa tela, o ar é nela tão real que não podem mais distingui-lo do ar que nos cerca. Onde está a arte? perdida, desaparecida! Eis as formas verdadeiras de uma rapariga. Não lhe dei bem o colorido, a precisão das linhas que parecem terminar o corpo? Não é o mesmo fenômeno que nos apresentam os objetos que estão na atmosfera como os peixes na água? Admirem como os contornos se destacam do fundo! Não lhes parece que podem passar as mãos nesse dorso? Também, durante sete anos, estudei os efeitos da conjunção da luz e dos objetos. E esses cabelos, não os inunda a luz?... Mas, creio, ela respirou!... Vejam, esse seio! Ah! quem não o quereria adorar de joelhos? As carnes palpitam. Ela vai erguer-se, esperem!
- Está vendo alguma coisa? - perguntou Poussin a Porbus.
- Não. E você?
- Nada.
Os dois pintores deixaram o velho entregue a seu êxtase, olharam para ver se a luz, ao cair a prumo sobre a tela que ele lhes estava mostrando, não neutralizava todos os seus efeitos. Examinaram então a pintura colocando-se à direita, à esquerda, de frente, abaixando-se e levantando-se alternativamente.
- Sim, sim, é mesmo uma tela - dizia-lhes Frenhofer, enganando-se com a finalidade daquele exame escrupuloso. - Olhem, aqui está a moldura, o cavalete, enfim, aqui estão minhas tintas, meus pincéis.
E apoderou-se de um pincel, que lhes apresentou num gesto ingênuo.
- O velho lansquenete está divertindo-se à nossa custa - disse Poussin, voltando para diante do pretenso quadro. - Não vejo ali senão cores confusamente amontoadas e contidas por uma porção de linhas esquisitas que formam uma muralha de pintura...
- Nós nos enganamos, veja! - respondeu Porbus.
Aproximando-se, perceberam num canto da tela a ponta de um pé nu que saía daquele caos de cores, de tons, de matizes indecisos, espécie de bruma sem forma; mas um pé delicioso, um pé com vida! Ficaram petrificados de admiração diante daquele fragmento escapo a uma incrível, a uma lenta e progressiva destruição. Aquele pé aparecia ali como um torso de alguma Vênus de mármore de Paros que surgisse de entre os escombros de uma cidade incendiada.
- Há uma mulher por baixo disso! - exclamou Porbus, fazendo Poussin notar as camadas de tinta que o velho pintor superpusera sucessivamente ao julgar que aperfeiçoava sua pintura.
Os dois artistas viraram-se espontaneamente para Frenhofer, começando a compreender, porém de modo vago, o êxtase no qual ele vivia.
- Ele está de boa-fé - disse Porbus.
- Sim, meu amigo - respondeu o ancião, despertando -, na arte é preciso fé, fé, e viver muito tempo com a própria obra para produzir semelhante criação. Algumas dessas sombras custaram-me muito trabalho. Olhe sobre a face, ali, abaixo dos olhos, há uma leve penumbra que, se a observarem na natureza, parecer-lhes-á quase intraduzível. Pois bem, julgam vocês que esse efeito não me custou trabalhos inauditos para reproduzi-lo? Mas também, meu caro Porbus, olha atentamente para o meu trabalho e compreenderás melhor o que eu te dizia sobre o modo de tratar o modelado e os contornos. Olha a luz do seio e vê como, por uma série de retoques e de realces fortemente empastados, consegui agarrar a verdadeira luz e combiná-la com a alvura lustrosa dos tons iluminados; e, como por um trabalho oposto, apagando as saliências e o grão da pasta, pude, à força de amaciar o contorno da minha figura, mergulhada nos semitons, suprimir até a idéia de desenho e de meios artificiais, e dar-lhe o aspecto e o próprio ondulado da natureza. Aproximem-se e verão melhor esse trabalho. De longe, ele desaparece. Vejam! ali, creio, ele é bem visível.
E com a ponta do pincel designava aos dois pintores um bloco de cor clara.
Porbus bateu no ombro do ancião, virando-se para Poussin:
- Sabe que vemos nele um bem grande pintor? - disse.
- Ele é ainda mais poeta do que pintor - respondeu Poussin gravemente.
- Aqui - prosseguiu Porbus, tocando a tela - acaba a nossa arte sobre a terra.
- E, daí, vai perder-se no céu - disse Poussin.
- Quanto gozo nesse pedaço de tela! - exclamou Porbus.
O ancião, absorto, não os ouvia e sorria àquela mulher imaginária.
- Mas cedo ou tarde ele se aperceberá de que não há nada na sua tela! - exclamou Poussin.
- Nada na minha tela! - disse Frenhofer, olhando alternativamente os dois pintores e seu pretenso quadro.
- Que fez você! - disse Porbus em voz baixa a Poussin.
O velho segurou com força o braço do rapaz e disse-lhe:
- Nada vês, labrego! tratante! patife! desavergonhado! Para que, pois, subiste aqui? Meu bom Porbus - disse ele virando-se para o pintor -, será que você também se está divertindo à minha custa? Responda! sou seu amigo, diga, teria eu estragado meu quadro?
Porbus, indeciso, não se atreveu a falar; mas a ansiedade pintada na fisionomia lívida do ancião era tão cruel que ele apontou para a tela, dizendo:
- Veja!
Frenhofer contemplou seu quadro um instante e cambaleou.
- Nada! nada! E ter trabalhado dez anos!
Sentou-se e chorou.
- Sou pois um imbecíl, um louco! não tenho nem talento nem capacidade! Não sou senão um homem rico que, ao caminhar, nada mais faz do que caminhar! Não terei, pois, produzido nada!

Contemplou a tela através de suas lágrimas, ergueu-se subitamente com orgulho e lançou aos dois pintores um olhar fulgurante:

- Pelo sangue, pelo corpo, pela cabeça de Cristo! vocês são uns invejosos que me querem fazer crer que ela está estragada, para ma roubarem! Eu vejo-a! - gritou - ela é maravilhosamente bela...

Naquele momento Poussin ouviu o pranto de Gillette, esquecida num canto.

- Que tens, meu anjo? - perguntou-lhe o pintor, voltando a ser um apaixonado.

- Mata-me! - disse ela. - Eu seria uma infame se te amasse ainda, porque te desprezo... Admiro-te, e me causas horror! Amo-te, e creio que já te odeio!

Enquanto Poussin ouvia Gillette, Frenhofer cobria sua Catarina com uma sarja verde, com a séria tranqüilidade de um joalheiro que fechasse suas gavetas ao julgar-se na companhia de hábeis ladrões. Dirigiu aos dois pintores um olhar profundamente dissimulado, repleto de desprezo e de desconfiança, pô-los silenciosamente fora de sua oficina, com uma presteza convulsiva; depois, à porta de sua casa disse-lhes:

- Adeus, meus amiguinhos.

Esse adeus gelou os dois pintores. No dia seguinte, Porbus, inquieto, voltou para ver Frenhofer e soube que ele morrera a noite, depois de ter queimado suas telas.

Paris, fevereiro de 1832

tradução de Ruth Guimarães